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cinderella
rosas
innersmile
Ontem à noite a minha sobrinha ligou-me a perguntar se eu queria ir ao CAE ver um espectáculo de ballet que ela tinha arranjado dois bilhetes. O bailado foi Cinderella, com música de Prokofiev, pelo Moscow Classical Ballet. Não sou grande fã do ballet clássico, naquele sentido em que ele não me inspira, não conversa comigo, mas apesar disso, diverte-me e entretém-me, o que já são razões de sobra para ir ver um espectáculo.
Uma das vantagens da queda do bloco de leste foi esta abertura ao exterior da tradição russa do ballet, e a possibilidade de nós assistirmos a espectáculos que, mesmo sem serem produções extraordinárias, têm sempre um mínimo de qualidade devedor da riqueza e da tradição da escola russa do ballet clássico.
Aliás, uma das coisas em que estive a reflectir a propósito do espectáculo de ontem, foi que me seduz a ideia de um certo funcionalismo deste tipo de arte performativa. Explico-me. Quando vamos assistir a determinado tipo de espectáculos, ou de artistas, há sempre uma dimensão artística ou cultural, uma determinada intensidade, uma caução de seriedade, de entrega e dedicação por parte dos artistas. Mas quando vamos assistir a um musical em Londres, ou quando vemos um bailado por uma companhia como a de ontem, há, por outro lado, a rotinização de uma função a que damos, habitualmente, uma dignidade muito superior ao adágio ‘another day another dollar’!
E isso, cheguei ontem à conclusão, é uma coisa que me seduz, o facto de para estas pessoas, essa coisa muito intensa, essa experiência de limite que é usar o corpo como forma de expressão humana, ser na verdade não mais que uma rotina profissional. Não estou, note-se, a menosprezar, antes pelo contrario. Não ignoro, ou menosprezo, o esforço físico e emocional, desses artistas que todas as noites se levam ao limite em frente a uma audiência. Mas o que me fascina é precisamente essa circunstância de que aquilo que para mim é uma experiência limite, para eles ser uma rotina profissional, como para mim é escrever ofícios ou relatórios.
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minha língua é minha pátria
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innersmile
Mudaram o horário do programa ‘Por Outro Lado’, da Ana Sousa Dias, que agora, pelos visto, passa às quartas-feiras por volta da meia-noite e meia. Ontem já apanhei o programa bem começado, mas mesmo assim ainda vi um bom bocado da entrevista ao jornalista brasileiro Nelson Motta.
NM é um jornalista cultural, personalidade muito central de um certo panorama da cultura popular brasileira, sobretudo da música, que é conhecido em Portugal não só pelo programa que o GNT transmite, ou transmitia não sei, Manhattan Connection, mas também porque, aqui há uns anitos, teve na televisão portuguesa um programa de parceria com a Eugénia Melo e Castro (ou então seria assim um convidado permanente), programa esse que reunia, em cada emissão, um músico português e um músico brasileiro, que para além de cantarem coisas próprias faziam sempre alguma espécie de colaboração entre ambos, no que representou uma tentativa séria de estabelecer uma ponte de intercâmbio entre as duas culturas musicais lusófonas, de forma coerente e frutífera (caramba!, eu que gosto de frases curtas, escrevi uma do tamanho do parágrafo. Apre!)
Ás tantas durante a entrevista o Nelson Motta disse esta coisa extraordinária: «Os artistas são uma das melhores partes do Brasil». Que coisa bonita de se dizer! Fica bem a quem a diz, fica bem aos artistas e fica bem ao Brasil. E, com efeito, a cultura é das coisas mais ricas e fantásticas do Brasil. Eu já sabia, desde há muitos anos, que isso era assim em relação à música, claro. Mas ultimamente tenho descoberto que a mesma riqueza e o mesmo realce se aplicam, por exemplo, à literatura.
Foi uma das coisas que eu descobri nos últimos tempos (e que devo muito ao livejournal): se queremos ganhar o futuro de uma cultura que atravesse o mundo, e se atravesse transversalmente no mundo, e que fale português, nós, os daqui do velho rincão europeu, temos de olhar com muita atenção para o Brasil.