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innersmile
Ontem à noite comecei a ver os Oscars, entusiasmei-me com os primeiros prémios a serem distribuídos e pronto! só parei quase às cinco, quando aquilo acabou. Acho que nunca tinha acompanhado uma cerimónia em directo até ao fim. Gostei muito do novo modelo, mais ágil e rápido, a passar pouco das três horas de duração, e sem aquela palha toda que costumava ter e que tornava aquilo numa coisa interminável. Claro que quem pagou a factura foram as categorias mais técnicas, despachadas em grande velocidade, algumas delas mesmo ali do corredor.

Fiquei muito contente com os prémios. Aliás, acho que este ano, e de uma forma geral, havia muitos bons candidatos. Como já disse, entusiasmei-me logo com os primeiros premiados, a Cate Blanchett e o Morgan Freeman, nos actores secundários. Foram duas das minhas interpretações preferidas, e além disso, acho o Morgan Freeman um ‘senhor’, e deu gozo vê-lo receber o prémio.
Os vencedores do prémio de actor principal também eram os meus preferidos. Quer dizer, a Hilary Swank, porque ainda não vi o Ray, mas para além de ser o favorito e de toda a gente elogiar o seu desempenho, eu gosto muito do Jamie Foxx, achei que ele foi o verdadeiro protagonista de Collateral, ofuscando o Tom Cruise (e foi nomeado para actor secundário por esse filme), por isso foi bem entregue.

Outro prémio que deu gozo ver foi o do argumento original para o Charlie Kaufman. Eu até nem sou grande fã do CK, tenho de admitir. Mas em primeiro lugar o ‘Eternal Sunshine’ é um filme muito especial, e é um filme de argumento, ou seja, um daqueles filmes que repousa por inteiro no argumento; por outro lado, é sempre gratificante ver reconhecido o trabalho de quem está fora, e por vezes mesmo contra, a norma.
Outro prémio que também me deu gozo foi o do Amenábar. Ainda não vi o filme, mas, caramba!, dá gozo ver reconhecida a pujança do cinema espanhol que em poucos anos passou de ser uma daquelas curiosidades de festival para ser um dos mais dinâmicos pólos da indústria cinematográfica. Também, nisto, devíamos olhar com mais atenção para o nosso lado.

Finalmente, os melhores. Claro que fiquei muito contente com a vitória do Eastwood. O Million Dollar Baby é um dos melhores filmes que eu vi desde há muitos anos, um filme poderosíssimo, que não cede um milímetro que seja às lógicas da indústria, e apesar da sua imensa seriedade é capaz de suscitar o fascínio do mainstream. É um feito, sem dúvida, termos um filme vencedor do Oscar para melhor filme que é, com efeito e sob todas as perspectivas, um filme excepcionalmente bom. Muito melhor, também não há dúvidas, do que The Aviator. Mas tenho de confessar que fiquei triste por Scorsese. Pode ser uma questão mais pessoal, mas para mim o Scorsese é um realizador mais especial do que o Clint Eastwood, e não só pelos filmes que já fez, mas pelos filmes que continua a fazer. O Scorsese foi um dos realizadores que educou o meu gosto pelo cinema, e por isso é chato ver que mais uma vez a sua contribuição incomensurável para a definição do que é hoje o cinema norte-americano, do que é hoje o cinema que nós vemos e que nos faz correr para as salas, não foi devidamente recompensada naquela que é a festa por excelência daquela cinematografia. De resto, não é em vão que algumas das mais importantes distinções artísticas (como a fotografia e a direcção artística) foram para The Aviator, sempre é um reconhecimento pelo contributo de Scorsese para aquilo que confere ao cinema a sua característica mais única e distintiva: ser simultaneamente, e na mesma passada, uma indústria de grande entretenimento e uma actividade artística. Mas, seja como for, é forçoso reconhecer que os Oscars para melhor filme e melhor realizador não podiam estar em melhores mãos do que nas de um realizador tão classicamente americano como Clint Eastwood, e logo numa das suas, talvez na sua obra maior.

Quanto à cerimónia em si, e para além do novo figurino mais rápido e ágil, destaque ainda para o host da noite, o Chris Rock, que deu àquilo uma certa frescura e novidade (para além de ajudar a transformar a festa numa celebração do talento negro no cinema americano). Tenho de confessar que não sou grande especialista nos vestidos das estrelas mas gostei muito, talvez por ser logo das primeiras, ou mesmo a primeira, da Renée Zelwegger, cuja silhueta desenhada era digna da saudosa e elegantérrima Jessica Rabbit.

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innersmile
Num dos inúmeros e delicadíssimos fios narrativos com que se entretece o filme Million Dollar Baby, e por sinal um dos mais indecifráveis, Frankie Dunn anda sempre com um livro de capa negra, escrito em gaélico.
Mais tarde, ficamos a saber que se trata de poemas de W. B. Yeats, porque Frankie lê a Maggie os versos iniciais de THE LAKE ISLE OF INNISFREE, um dos seus mais conhecidos poemas.
Tentei encontrar na web uma tradução em português do poema, mas não consegui, e não tenho à mão o volume onde o poema vem traduzido. De qualquer modo, aqui fica o poema do Yeats, hoje especialmente dedicado ao Fábio, para que ele encontre depressa a sua Ilha de paz e tranquilidade, mas também para que nunca esqueça que «peace comes dropping slow».

I will arise and go now, and go to Innisfree,
And a small cabin build there, of clay and wattles made;
Nine bean rows will I have there, a hive for the honey bee,
And live alone in the bee-loud glade.

And I shall have some peace there, for peace comes dropping slow,
Dropping from the veils of the morning to where the cricket sings;
There midnight's all a glimmer, and noon a purple glow,
And evening full of the linnet's wings.

I will arise and go now, for always night and day
I hear lake water lapping with low sounds by the shore;
While I stand on the roadway, or on the pavements gray,
I hear it in the deep heart's core.