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million dollar baby
rosas
innersmile
Acho que já todos vivemos situações de grande intensidade e tensão emocional, por exemplo uma grande crise de choro. No fim, sentimo-nos emocionalmente exaustos, como se todas as nossas emoções tivessem tido o seu momento de explosão, a sua catarse, como se tivéssemos sido esvaziados de todas as emoções. Então, depois da crise, sentimos um cansaço, uma paz, uma tranquilidade. Aquela sensação de que já passou, de que já atravessámos a tempestade, e conseguimos sair exaustos mas intactos pelo outro lado.
Foi mais ou menos com este tipo de sentimento que saí de Million Dollar Baby, o filme mais recente de Clint Eastwood. Não sei se é a obra-prima de Eastwood, eu que já tinha achado o Mystic River um filme muito acima de muito bom. Mas é seguramente um filme absoluto e radical, feito com uma mestria e um domínio dos meios perfeitamente inigualável.
É já um lugar mais ou menos comum dizer que Eastwood é o principal herdeiro do cinema clássico norte-americano. E isso quer dizer que os filmes de Eastwood são de uma simplicidade rigorosa. De uma contenção e de um comedimento totais. Não há ali nada a mais, não há gordura, não há ganga, não há joio. O filme nunca se afasta um milímetro que seja daquilo que é essencial, cada sequência, cada cena, cada linha de diálogo, faz progredir a narrativa, serve a história do filme e a história das personagens. Tudo com a perfeição de um mecanismo de relógio. E o que é mais admirável é que tal rigor, uma arquitectura tão limpa, nunca transforma este filme num objecto árido. Antes pelo contrário, o filme é sempre um vulcão, há sempre milhares de sentimentos, de emoções, que formam teias complexas e profundamente humanas, em erupção. O filme é simultaneamente violento e tranquilo, as personagens, todas, mesmo as que parecem mais desagradáveis, são sempre dignas de um olhar profundo, e profundamente humano. Aliás, uma das coisas absolutamente fascinantes deste filme é a profundidade das personagens, mesmo daquelas que mais fugazmente atravessam o ecrã (como o padre, ou Danger, ou a família de Maggie). É quase inacreditável como em meia dúzia de planos, Eastwood dá profundidade e complexidade às personagens, deixam de ser meras personagens, uni-dimensionais, e passam a ser verdadeiras pessoas, com as suas faces solares e com as suas faces obscuras, com as suas promessas e com as suas maldições, com as suas revelações e com os seus mistérios. Atente-se por exemplo na história de Frankie em relação à sua filha, como esse fantasma é tão omnipresente no filme, tão determinante (afinal é ele que leva Frankie todos os dias, desde há trinta anos, à igreja) e marcante da lógica e do sentido da personagem, e como nunca, por pudor mas sobretudo por eficácia narrativa, Eastwood nos permite saber o que de facto aconteceu.
Enfim tudo é estelar neste filme sombrio e magoado. Um filme imbuído de uma enorme, de uma interminável compaixão em relação ao ser humano. Quando Frankie treina Maggie, quando a trata, quando lhe limpa as feridas, é a imagem de Maria Madalena ajoelhada lavando os pés de Jesus.
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rosas
innersmile
O dia parece banal, um Domingo como os outros. Desfolham-se os suplementos do jornal da véspera, mais para desafiar as horas do que propriamente por interesse. E de repente, de forma inesperada, atravessa-se uma frase reveladora, daquelas que dão nome, que dão palavras ao que, até aí, existia apenas como imanência. Assim:

«Cansado», «deserto», «condição maldita», «derrota», «enigma» pontuam uma voz de sofrimento, dessas com uma força verbal que são capazes de se tornar - é essa uma alta função da literatura - uma espécie de relâmpago de companhia e amparo na deslocação pessoal de algum mundo. Não sei bem como isso funciona, nem é importante seja para o que for racionalizá-lo. A emoção surge, e uma ideia de partilha acompanha o leitor, seduzido no seu desmoramento pelo igualmente desmoronado que lhe é dado compreender. Essa partilha experimenta o esforço de uma dor como uma tensão estética, uma espécie de música partida no extermínio do quotidiano pessoal. Uma qualidade de mão das palavras aperta a nossa mão e sentimo-nos menos, se isso é possível, decapitados.

Quem assim define a poesia (ou será a vida?) é Joaquim Manuel Magalhães, numa recensão crítica ao livro 'Senhor Porco', de Jorge Roque, no suplemento Actual do Expresso de ontem.