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a coisa animal
rosas
innersmile
Estive a ler, através de um link que o jcleto disponibilizou, uma entrevista publicada no Independente com um tipo chamado João César das Neves, que, pelo que li no artigo, é economista, cientista e professor universitário.
Nem sequer consigo comentar as afirmações dele respeitantes à homossexualidade (nomeadamente a sua associação à pedofilia), porque as acho demasiado degradantes. Para falar com franqueza, nem consigo elaborar muito sobre o assunto, quer dizer, sobre as opiniões dele, porque não as entendo. Posso dizer, por exemplo, que já percebo o que ele diz acerca do aborto, ainda que possa não concordar (porque uma coisa é eu perceber o que tu dizes, e, eventualmente, não concordar; outra coisa muito diferente é eu em sequer perceber o que tu estás a dizer, qual o sentido e significado dos teus argumentos). Ele assume uma posição moral sobre o assunto, e isso eu entendo, apesar de eu achar que, neste momento, pelo menos, a questão do aborto se coloca a nível político, jurídico e social, e não num plano moral, no qual, julgo eu, todos nós somos contra a prática do aborto. A questão é pensar se neste momento não haverá outros interesses, que se colocam no plano político, jurídico e social, que reclamem uma solução menos penalizante para as pessoas que, por razões bem determinadas e em situações bem tipificadas legalmente, tenham recorrido àquela prática.

Mas o ponto da entrevista que eu queria analisar aqui é outro. A determinado passo, pergunta o entrevistador ‘qual o problema de procurar o acto sexual só pelo prazer?’. E responde o JCN: «O acto sexual não é só uma questão de prazer. Limitá-lo ao prazer é transformar uma coisa humana numa coisa mecânica, animal». Ora aqui é que bate o ponto. E nem vale a pena determo-nos muito nessa estranha, e a meu ver incorrectíssima, equivalência entre o mecânico e o animal.
Não sou biólogo, nem psicólogo, nem economista, nem sequer cientista, mas parece-me que o prazer, a noção abstracta e autónoma de prazer, o prazer como um fim em si mesmo, o prazer pelo prazer, é uma característica profunda e essencialmente humana. Não é comum na natureza, ou seja no reino animal (e digo só que não é comum, não digo que esteja totalmente excluído), esta procura do prazer pelo prazer. Nos animais, ou está de todo excluída a noção de prazer (as amibas têm orgasmo?), ou existe uma noção de prazer muito funcional, ou seja, o prazer, que é só químico, existe como que para ‘chamar’, para ‘trazer’, os indivíduos ao acto sexual, assegurando desse modo a continuidade da espécie.
Por razões evolucionistas, mas também históricas, de cultura e de mentalidade, o homem evoluiu desse conceito puramente funcional, para um outro mais civilizacional, em que o prazer é uma actividade essencialmente humana, ou seja, espiritual, intelectual. O prazer é, no homem, um assunto da alma, do espírito, já não apenas da matéria, do corpo. Se não vejamos: a revolução mais relevante do nosso tempo, a que trouxe a mulher para um plano igualitário ao homem a nível social, político, etc., deve muito ao facto de, com a pílula, a mulher se ter libertado da escravidão funcional da maternidade, podendo, como já acontecia desde há uns séculos valentes com o seu parceiro masculino, entregar-se ao prazer sexual só pelo seu gozo.
Por isso, parece-me que em rigor aquilo que podemos dizer é, ao contrário do que julga JCN, limitar o acto sexual ao prazer é essencial e fundamentalmente, transformá-lo numa coisa humana. Condicioná-lo a uma função meramente reprodutiva é que me parece ser confiná-lo aos limites da física (e não apenas da mecânica, apesar de esta ser, como se compreende, muito importante nesta matéria) e da química. Enfim, não elevar o acto sexual, não o transformar, não o libertar, mas deixá-lo ser, como era sem dúvida nos primórdios da humanidade, uma coisa animal!