February 22nd, 2005

rosas

(no subject)

Era um menino ou era um rapaz, não sei, estava sentado numa cadeira de lona, e olhava o mar, ou seria o rio. Há momentos na vida dos meninos, na dos rapazes igualmente, em que as respostas parecem tardar numa vaga, e eles deixam-se ficar, muito sensuais e muito melancólicos, esperando a onda certa. Lá atrás, na avenida, havia uma multidão de desencontrados, mas isso não parecia incomodar minimamente a tranquila serenidade do menino-rapaz, que, no preciso momento em que, sonhava alto com o torso doirado de outros rapazes que jogavam à bola no areal. Pelo menos, era assim que o menino, ou seria o rapaz, os via através do olho sempre atento da sua auto-contemplação.

Lá longe havia uma casa, um primeiro andar de vidros húmidos, saído de um conto de caio fernando abreu, e habitado por pessoas inescrutáveis. Ficava no passado, essa casa, numa rua de movimento incessante, e de tempos a tempos, os vizinhos e a polícia passavam ronda. Para quê, para ver se as inescrutáveis ainda respiravam, se ainda havia vida naquela casa, para lá da porta e das janelas, se o gato continuava a ser alimentado certinho.

Nesse momento, o rapaz, que já começara a deixar o menino para trás, plantado no passeio em frente à casa abandonada, voltou atrás pegou no menino de novo, e foram ambos revisitar o gato. Foi o gato, um siamês envelhecido e preguiçoso, que arrancou o rapaz dos seus sonhos mais ou menos foscos e o fez regressar até ao tempo em que.

Na fotografia, a velha dama do cabelo em cacho, olhava com os seus olhos imperscrutáveis. Ou seriam apenas atordoados. Sofria na pele a impossibilidade do seu sonho, e o facto, que lhe ardia na memória como uma certeza aguda, de que o velho retrato começava a descorar. Olhava o menino sem conseguir articular a razão pela qual lhe escapava pelos dedos a água fina que trazia, ainda que envolvida em névoa e sombras, a sua própria infância, e talvez da infância da sua própria mãe, e da infância da mãe da sua mãe e. Evaporou-se. Ou escapou pelos poros da areia, embebendo o rastro arrastado dos seus passos. Não conseguia ver que, impressa na sua nuca como uma outra fotografia, colorida, um rapaz, ou seria ainda um menino, sentado numa cadeira de lona, fitava essas mesmas águas.

De que lado do areal se há-de, mais tarde, pôr o sol?