February 20th, 2005

rosas

burmester

Só conhecia bem um disco do Pedro Burmester, em dueto com o Mário Laginha, uma gravação já antiguinha, feita ao vivo no CCB, e que tem uma das versões mais viscerais que conheço do El Salon Mexico, de Aaron Copland, que é uma das minhas músicas preferidas.
Isto para dizer que não ia muito preparado, ontem, para o recital no CAE da Figueira. E que fiquei assim tipo membro da igreja-burmesteriana-de-todos-os-dias. O homem é fantástico. E, sim, eu sei que exagero sempre nos elogios, mas os encómios não devem ser poupados quando estamos assim perante um tipo que ataca o piano de uma forma ao mesmo tempo suave e violenta, estraçalhando cordas e tempos, levando até ao limite da escrita a possibilidade de transformar o que vem estabelecido na pauta. Burmester ataca o piano como se cada nota, se cada nota individual, se cada única nota, existisse sozinha, de per si, fosse apenas ela a totalidade do concerto, valesse por toda a noite. Cada momento é importante, como se a totalidade da peça executada resultasse numa abstracção, como uma paisagem que só podemos apreender na sua totalidade vista da distância, do ar, porque quando estamos submersos nela só o momento é importante, só esta nota existe, só nela se realiza a plenitude da música.
Estou a inventar, claro, porque não sei falar de música, não tenho linguagem técnica, não domino o jargão, e então a única forma de verbalizar o que sentimos é tentar construir uma metáfora que seja uma espécie de estátua, de monumento central daquilo que só se sente verdadeiramente quando se respira pela boca o ar que sopra por cima de uma praça.
No programa, Fantasia em Dó Maior, Opus 17, de Robert Schumann, e Sonata em Si Menor, de Franz Liszt.