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melinda and melinda
rosas
innersmile
É forçoso reconhecer que Woody Allen não está exactamente num pico de forma, apesar de eu ter gostado mais deste Melinda and Melinda, do que do anterior Anything Else. A questão é que eu sou um fã incondicional do WA e por isso divirto-me sempre a ver os seus filmes, e neste caso as marcas estão, naturalmente, presentes.
O ponto de partida do filme é um jantar de amigos onde se discute se a vida é uma tragédia ou uma comédia. Então, para reforçarem o seu argumento, dois dos convivas começam a contar a história de Melinda, ou melhor, as histórias das Melindas, uma em tom de comédia e outra em tom de tragédia. As duas histórias não são propriamente o espelho uma da outra, mas são como se fossem dois caminhos mais ou menos paralelos do mesmo bosque, há muitos pontos de contacto, há quase como que cruzamentos entre as duas histórias, pelo menos há lugares que ambas as histórias visitam (as corridas, o bistrô).
A lição final do filme parece ser a de que, tragédia ou comédia, a verdade é que há sempre duas maneiras de contar a história, ou seja, há sempre duas perspectivas em relação à vida. Mas esta conclusão quase à Reader’s Digest não, na minha opinião, o mais interessante do filme. Esse resulta, claro, daquele universo alleniano que já conhecemos tão bem, e que, por isso, cada filme novo parece ser sempre uma revisitação a lugares onde nos sentimos bem, àquela visão da vida ao mesmo tempo doce e amarga, irónica e terna, simples e sofisticada; isso: trágica e cómica!
Há, para quem gosta, claro, um prazer intelectual intenso nos filmes de Woody Allen, como se alguém nos estivesse a fazer festas à inteligência. Um prazer que reside na forma muito ‘smart’ como os diálogos são escritos, na fluidez das sequências, na especial sensação de pertença das personagens aos lugares da acção (é das coisas mais admiráveis nos filmes de Allen, a forma como aquelas personagens parecem sempre habitar com tanto à-vontade e tanta familiaridade os lugares da acção), uma enorme ternura, mesmo quando é amarga, irónica ou mesmo cínica, no olhar que deita às personagens.
O filme, convenhamos, não é grande espingarda, mas como eu conversei ontem com um certo brasileiro descarado, Woody Allen é como pizza ou como sexo: mesmo quando é mau, é muito bom.
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