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conto: sms
rosas
innersmile
SMS

Ainda estava deitada quando a mensagem chegou ao telemóvel: 'Diz em voz baixa: Jesus ama-me e tem um lugar para mim no seu coração. Manda esta mensagem para cinco pessoas e hoje à noite acontecerá um milagre na tua vida'.
Começou a repetir baixinho 'Jesus ama-me e tem um lugar para mim no seu coração', 'Jesus ama-me e tem um lugar para mim no seu coração'. Mas ficou preocupada: a quem mandar as mensagens? Enumerou mentalmente as pessoas de quem tinha o número de telemóvel, mas ao fim do terceiro ou quarto já tinha a lista toda baralhada. Levantou-se e foi buscar um papel e um lápis. Primeiro as filhas. Não, só a mais velha. A mais nova era muito capaz de telefonar a ralhar por ela estar a gastar dinheiro com este tipo de mensagens, é sempre muito crítica em tudo o que diz respeito a religião. Sim, a mais velha aceitaria a mensagem e era até capaz de a enviar a outras pessoas, sem quebrar a corrente. Até porque tem filhos, e quando se tem filhos a perspectiva de um milagre é sempre importante. Mandar a mensagem aos netos estava fora de questão, não ligam nenhuma: nem a Jesus, nem a ela, nem a nada que não sejam as amigas e as coisas próprias da idade. Talvez às meninas, já são crescidas e têm telemóvel. Mas não, não iam entender nem respeitar, e na primeira oportunidade aproveitariam para troçar.
Faltavam ainda quatro pessoas. Pensou nas amigas, claro, menos à que tinha enviado a mensagem. As outras duas iriam ficar contentes. A não ser que a que lha enviou tenha também mandado às outras duas. O mais provável era que sim. Mas como não tinha a certeza, e o assunto era demasiado importante para correr riscos, pelo sim pelo não, mandou-lhes a mensagem. Não podiam ficar de fora da corrente, nem lhe perdoariam. Além disso, assim já só faltavam duas pessoas.
'Jesus ama-me e tem um lugar para mim no seu coração'. Correu os números que tinha no telemóvel. Hesitou muito se haveria de enviar ao merceeiro. Ela tinha o número dele porque lho tinha dado, podia ser preciso para alguma coisa, uma doença, se não conseguisse sair de casa de manhã para ir ao leite e ao pão. Ou à cabeleireira? Estava mais à vontade para enviar a mensagem à cabeleireira, sempre era uma senhora, mas alguma coisa lhe dizia que o merceeiro era uma pessoa mais religiosa, que levaria o assunto mais a sério, com mais respeito, e que estaria mais disposto a deixar entrar Jesus no seu coração. 'Jesus ama-me e tem um lugar para mim no seu coração'. Enviou a mensagem ao merceeiro. Faltava apenas uma pessoa. Foi apontando os nomes no papel, não eram muitos, mas eram os suficientes para causar dúvidas e hesitações. E até havia um nome completamente desconhecido: D. Maria do Céu. Quem seria esta Maria do Céu?! Não se conseguia lembrar. Por isso decidiu que seria a quinta pessoa a quem iria enviar a mensagem. Se tinha o número do telemóvel dela é porque a conhecia de certeza, e pareceu-lhe ser uma boa hipótese. Se fosse amiga, agradeceria com certeza a lembrança e até podia ligar de volta. Se fosse alguém que tinha apenas conhecido de passagem, ou ficaria feliz por fazer parte da corrente, ou, caso contrário, não teria coragem para ligar a protestar.
'Manda esta mensagem para cinco pessoas'. Esta parte estava feita. Agora restava esperar pela noite para o milagre acontecer. Que milagre seria? Começou a ficar muito intrigada e até um pouco perturbada. Só há dois verdadeiros milagres na vida dos velhos: terem saúde ou morrerem. E não conseguia decidir com muita firmeza qual dos dois preferia que lhe acontecesse nesse dia. Decidiu enfiar o roupão e ir comer qualquer coisa, que durante o dia nunca tem muita fome. Aqueceu um copo de leite com uma pinga de chá que tinha sobrado da véspera, e pôs-se a trincar umas bolachas. Bem, há um outro milagre muito especial na vida dos velhos, que é serem acarinhados pela família e terem um quarto confortável só para eles na casa das filhas.
'Jesus ama-me e tem um lugar para mim no seu coração'. O telemóvel não voltou a tocar durante todo o dia. Ou seja, se fosse o terceiro milagre, era tão inesperado que então seria mesmo um grande milagre. Mas o mais provável era não ser. Um dos outros dois, muito possivelmente. Se fosse a semana passada, teria preferido o milagre de morrer, doía-lhe o corpo todo, e sentia um cansaço demasiado grande para o conseguir suportar. Mas esta semana tinha andado bem disposta, e aproximava-se o dia do lanche mensal com as amigas, por isso até lhe dava jeito que o milagre fosse ter saúde para passar melhor mais uma semana.
Dormitou toda a tarde em frente à televisão. 'Jesus ama-me e tem um lugar para mim no seu coração'. Ganhar muito dinheiro não era um verdadeiro milagre para um velho. Para que é que um velho precisa de muito dinheiro? Para o deixar às filhas? Só se fosse para ir para um lar, mas se a família não a podia ter consigo, preferia ficar na sua própria casa, onde estavam os objectos e as lembranças da sua vida e do seu marido. Isso sim, seria um verdadeiro milagre, receber a visita do marido. De preferência, de quando ele era novo, quando se conheceram, quando ele era forte, bonito e galante. Perguntou-se se seria capaz de voltar a dormir com um homem, mesmo que fosse com o seu marido quando era novo. Sorriu com o sarcasmo que lhe subiu à boca: um milagre digno de um santo do céu, sem dúvida. Mas o pensamento parou-lhe o olhar e absorveu-lhe a atenção: ficou muito tempo a pensar na possibilidade de o marido lhe aparecer à noite, o milagre iria acontecer à noite, novo, forte, bonito e galante, como quando se conheceram. E na possibilidade de ela dormir outra vez, tantos anos depois, com um homem. 'Jesus ama-me e tem um lugar para mim no seu coração'.
'Jesus ama-me e tem um lugar para mim no seu coração'.
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