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jall sinth hussein
rosas
innersmile
Há livros (ou filmes, ou músicas) que nos acenam de longe. Ainda não nos chegaram e já os começamos a sentir nas mãos, já os olhos nos ardem de vontade.
Eu tinha lido uma referência ao livro, creio que num blog, penso que no maschamba (que, por falar nisso, infelizmente terminou). Há alguns meses. Depois, vi-o no site da editora. Sempre a procurá-lo nas livrarias, a perguntar por ele. Nada, sinal nenhum. Até que um dia, na livraria pequena onde já conheci melhor as estantes do que os próprios empregados, pedi para o encomendarem.
Já me chegou às mãos há umas semanas. Que emoção. Desfolhei-o logo à porta da livraria. Até esse momento não lhe conhecia uma frase, um verso. Mas quando comecei a ler, era mesmo aquilo que eu adivinhava, era como se já o conhecesse, como se os meus olhos já conhecessem o ritmo, a cadência, a leveza grave, os fios do tempo a escorrer pelas palavras.
O livro chama-se Poemas do Índico, e o seu autor é Jall Sinth Hussein, um indiano da Ilha de Moçambique, e cujos poemas conseguiram sobreviver durante os mais de vinte anos que nos separam da sua morte, tanto quanto me apercebi, em mãos e colecções particulares. Aliás, esse é outro dos motivos encantatórios deste livro, a sensação que estes versos nos chegam, etéreos e intemporais, como se fossem eles próprios produtos do tempo e da memória.
Este poema, intitulado ÍNDICO, já apareceu À Sombra dos Palmares, onde já há mais um, e onde outros se irão certamente sentar (também já apareceu um poema aqui no innersmile, a semana passada).

Pálida e fria como uma estátua grega
a luz do sol me chama e me habita.
No sul sei que o silêncio passa devagar
por isso me perco no vento que me leva lá.
No sul ouço o dia brotar
e não em outro lugar.
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