February 8th, 2005

rosas

o quinto império

É curioso, mas a primeira impressão que tive ao ver O Quinto Império – Ontem Como Hoje, é que o realizador Manoel de Oliveira tinha um encontro marcado com este filme, com D. Sebastião, com os mitos do Desejado e do Encoberto, enfim, com o Quinto Império. Que o filme já estava inscrito no destino do realizador, e que era só uma questão de dar tempo ao tempo. Mas talvez isto seja assim, porque o filme me pareceu totalmente ‘oliveiriano’, com uma marca autoral muito forte.
Eu não vi muitos filmes de Manoel de Oliveira, não sou capaz de os ver todos, não me consigo desfazer o suficiente de toda a ganga narrativa, de todos os tiques que a nossa maneira de ver cinema vai ganhando, para conseguir ver os filmes de Oliveira da forma pura e descomprometida que eles pedem. Além disso, os últimos filmes que vi dele não me fascinaram nem seduziram.
Mas gostei bastante desta visita de Oliveira ao mito de Sebastião. Grande parte do mérito, é preciso reconhecer, tem a ver com o poema dramático do José Régio, que encena de forma muito acutilante o drama sebastianista de ser português. Mas achei que a maneira de fazer cinema de Manoel de Oliveira acrescentou uma grande mais-valia ao texto. Por exemplo, a utilização do plano fixo, que é tão típica do cinema de Oliveira, serve às mil maravilhas o tom da peça: o plano fixo é muito objectivo, é um plano que não dá profundidade ou amplitude psicológica, quando estamos a ver o plano fixo só estamos a ver o que está à mostra, o que está à vista. Ora, nada mais adequado para um texto em que o que surge, o que aparece, o que se encena, pretende nunca ser a verdade, nunca é o fundamental, o essencial, é sempre e apenas um sinal, uma emanação. Aquilo que vemos no ecrã, aquilo que as personagens dizem, nunca é a verdade imanente. Essa não a podemos ver, porque está encerrada no espírito de Sebastião, no seu sonho de glória ou no desastre da sua loucura. Não a podemos ver porque está escondida pelo nevoeiro, pelo mito. Assim, aquilo que o plano (fixo) mostra é apenas o drama que se constrói à volta do rei e dos seus planos fantásticos, nunca é a sua verdade. O ecrã é uma verdadeira tela, onde vai surgindo não uma verdade, mas apenas uma sua representação.
Na minha opinião há um outro factor de sucesso e eficácia do filme, e que é a interpretação do Ricardo Trepa. Aliás, para mim a representação de Sebastião ficará de ora em diante muito ligada a esta personificação do filme de Manoel de Oliveira, como até aqui era sobretudo a da estátua do João Cutileiro em Lagos. O que é fantástico no desempenho de RT é como ele mantém sempre a personagem muito agarrada, num papel em que as fragilidades próprias da personagem, e de um histerismo que está sempre muito à flor da pele mas sem nunca chegar a irromper, podiam deitar tudo a perder. O que eu quero dizer é que RT nunca deixa a personagem de Sebastião ser ridícula, e o risco de isso poder acontecer era sério.
De certo modo, a única grande fraqueza do filme reside, para mim, no subtítulo que Oliveira deu ao filme. É que aquele ‘ontem como hoje’ corria o risco de ser redundante, mas na minha opinião é mais do isso, é um elemento de fraqueza, porque torna demasiado evidente um determinado programa, quando tudo o que o filme pede é mistério, é densidade, é incerteza.