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the aviator
rosas
innersmile
Eu posso ser suspeito, porque considero o Martin Scorsese um dos melhores realizadores do actual cinema norte-americano, com uma obra de uma consistência à prova de bala, feita de filmes, no mínimo, todos eles interessantes e, na sua maior parte, entusiasmantes, para além de, pelo menos, duas ou três obras-primas. Mas mesmo assim, poucas dúvidas em considerar The Aviator um dos melhores filmes do ano.
A primeira nota é que Scorsese respira cinema, os seus filmes são cinema em estado puro, são histórias contadas através de formas especificamente cinematográficas de narrativa, através de argumentos muito bem construídos, através de um trabalho de câmara pura e simplesmente genial, através de escolhas de actores e de interpretações de tirar a respiração. Os filmes de Scorsese são feitos para ver no grande ecrã, na sala às escuras, porque são filmes que vivem desse fascínio de contar histórias através de ‘moving pictures’.
O filme, como se sabe, conta a história do multi-milionário Howard Hughes que foi tudo: entrepreneur, realizador de cinema, pioneiro da aviação, piloto de aviões, dono de companhias aéreas, dono de casinos em Las Vegas, excêntrico, ladies man proeminente, até louco recluso. O filme centra a sua atenção no período de vinte anos que vai da realização do filme Hell’s Angels, em meados dos ano vinte, até ao estabelecimento da TWA como uma das mais bem sucedidas companhias aéreas internacionais, em finais da década de quarenta. Aliás, estes dois factos exemplificam aquilo que, na vida de Hughes, interessa ao filme: o seu papel de produtor e realizador de cinema e as suas aventuras na aviação, quer enquanto pioneiro e inovador, quer enquanto empresário.
Mas mais do que uma biopic, ao filme interessa, sobretudo, averiguar dos demónios interiores de Hughes, ou não estivéssemos a falar de Martin Scorsese. Assim, ao mesmo tempo que nos são contadas as suas vitórias nos céus, e as suas conquistas em Hollywwod, o filme vai mostrando as manias e compulsividades que aos poucos vão tomando conta do espírito de HH. Aliás, na minha opinião, o aspecto menos conseguido do filme prende-se com uma leitura que me parece demasiado superficial das suas experiências de infância como o lugar de origem de tudo o que em si é mau e é bom. Mas onde o filme já é excelente é em mostrar que são esses fantasmas que, ao mesmo tempo que o aprisionam numa cela de obsessão e pânico, o impulsionam ao voo (em sentido estrito e em sentido figurado) libertador, numa tentativa desesperada de fugir à maior velocidade possível da loucura.
Mas a lista de coisas que se podem dizer deste filme é interminável, de tal forma ele é grandioso. De Caprio tem aqui a sua melhor interpretação de sempre, e até é caso para dizer que nem se imaginava que ele fosse capaz de representar assim (notar que este filme é um projecto do actor, que co-produz). Cate Blanchett faz uma Katharine Hepburn inesquecível, conseguindo nunca resvalar para a caricatura quando era tão fácil fazê-lo. Até a presença do Rufus Wainright no Cocoanut Grove a cantar o I’ll Build a Stairway to Paradise, do Gershwin, é um dos motivos que tornam o visionamento deste filme uma imensa e contínua experiência de prazer.
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