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marrabentando
rosas
innersmile
Passou ontem na rtp1 (na verdade, passou hoje de madrugada) o documentário ‘Marrabentando. As Histórias Que A Minha Guitarra Canta’. O site da rtp dá informação miserável: pouca e completamente errada, sobre este filme luminoso e levezinho como... a marrabenta ela própria. A Marrabenta é o estilo popular de dança no sul de Moçambique. Depois da independência, naquele período de maior engajamento político, a marrabenta foi não só ostracizada como, penso eu, mesmo censurada, dado o relevo desse género musical durante o período colonial. Mesmo se a Marrabenta não foi um produto do colonialismo, como há quem defenda ou defendeu, a verdade é que foi totalmente aproveitada pela administração colonial quer como factor de entretenimento quer como cartaz propagandístico. Um processo que não terá sido muito diferente do que aconteceu em Portugal com o fado. Digo eu, claro, que não sou entendido no assunto.
Mas a verdade é que a Marrabenta, por ser verdadeiramente popular, sobreviveu a tudo e, na primeira oportunidade, ressurgiu à luz de sol. E ressurgiu trazida pela mão dos antigos mestres cultores do género, e pela mão de uma geração de jovens músicos que tentaram fazer a ponte entre a Marrabenta e os estilos actuais de música popular, como o rap e o hip hop.
Voltando ao assunto, o filme de Karen Boswall centra o seu olhar sobre a Marrabenta em dois dos seus mestres: Dilon Djindji e António Marcos, sendo o primeiro um venerabilíssimo ancião que, além de tocar, cantar e compor, dança a Marrabenta de forma incendiada e frenética. O filme tem dois grandes vectores: um que segue cada um dos músicos até às suas aldeias natais, contrapondo as suas origens rurais às suas vivências de subúrbio, que é o cadinho onde se cultiva e floresce este género musical. O outro vector passa pelo Projecto Mabulu, grupo musical que faz o cruzamento de gerações, entre os músicos mais jovens e os velhos mestres Dilon e António Marcos, seguindo o filme uma curta digressão do grupo pela África do Sul. E que eu tive a enorme sorte de ter visto ao vivo, no bar África, em Maputo.

Hoje de manhã liguei à minha mãe a perguntar o que tinha achado do filme, e ela fez um comentário interessante: que o tinha visto com um sentimento de pertença, sem qualquer estranheza. O único ‘defeito’ do filme, por assim dizer, é que levanta muitas pontas, toca em muitas coisas, e depois ficamos assim com água na boca à espera de mais e mais. Queremos continuar a tomar copos com Dilon e os seus irmãos no clube lá de Marracuene. Queremos continuar a ouvir as extraordinárias histórias de António Marcos (e garanto que a história das suas duas mulheres, Henriqueta e Rute, não é a mais excepcional das que tem para contar este ex-pugilista que sabia que tinha de ganhar os combates aos brancos por KO, porque se fosse aos pontos era derrota certa) e as suas ainda mais extraordinárias filosofia de vida e lucidez. Queremos continuar, sobretudo, a ver dançar e a ver e ouvir tocar esse ritmo poderoso e hipnótico, que é leve como a nuvem e rápido como o passarinho. Viva ele nas histórias cantadas pela guitarra acústica, ou nas outras mais fantásticas que nascem de uma viola feita a partir de uma lata de cinco litros.
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