January 25th, 2005

rosas

exposições no cav

Exposições novas no CAV!
‘Uma Extensão do Olhar’, comissariada por Miguel Amado mostra obras da colecção da Fundação PLMJ. Para além do eventual interesse em descobrir qual o sentido ou a direcção um determinada colecção, este tipo de exposições valem sempre muito pelo valor das obras individuais expostas. A colecção apresentada, ou pelo menos a parte dela aqui exposta, é composta por fotógrafos nacionais, e as obras datam, se não estou em erro todas elas, das décadas de 90 e da corrente. Obras muito recentes, portanto, que de algum modo nos indiciam alguns dos caminhos da fotografia de arte em Portugal, em duas variantes fundamentais: uma de representação do real como ponto de confluência do humano e de um olhar marcadamente cultural ou artístico, e outra que tem um pendor digamos mais intervencionista, que considera a fotografia um instrumento, ou um material, das artes plásticas. Confesso que, por educação, ou falta dela, sou sempre mais sensível à primeira das variantes enunciadas, e é aí que residem as obras que mais me agradaram na exposição.
Como tem o patrocínio do Público, é provável que, à semelhança do que tem acontecido recentemente, o jornal traga um dia destes o catálogo da exposição como oferta promocional.

No projecto room, duas instalações muito interessantes. ‘Le Pli’, de Cecília Costa, é um video que mostra em registo frontal um grupo de pessoas, jovens, a ler um painel onde se inscrevem palavras que denominam cores e que são escritas em cor diferente da que é enunciada: verde aparece escrito em cor cinzenta, por exemplo, e por aí fora, no que é conhecido como ‘efeito de Stroop’, e que é um teste à organização do nosso cérebro em hemisférios. À instalação interessa sobretudo o registo das reacções das pessoas, nomeadamente ao facto de se enganarem e a forma como lidam com o erro.
A outra instalação é de João Pombeiro, denomina-se ‘Schizo’, e consta de uma remontagem das célebres cenas da perseguição no milheiral do filme North By Northwest, de Hitchcock. Na remontagem apresentada, para além da alteração da sequência, foi digitalmente apagado o avião, de modo que o resultado é perplexizante: uma série de planos de um Cary Grant atormentado e em fuga nunca se sabe por e de quê, e consequentemente dos seus próprios fantasmas, do seu próprio vazio.
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cachacistas juramentados

Há muitos, muitos anos, uma das primeiras novelas brasileiras a passar em Portugal foi O Bem Amado, uma divertida sátira política escrita por Dias Gomes. No primeiro episódio da novela, Odorico Paraguaçú, perfeito de Sucupira, abre um cemitério, e passa os restantes duzentos, ansioso por deixar de lado os entretantos e passar aos finalmentes, a tentar tudo por tudo para ter um morto de forma a poder inaugurá-lo. Claro que só vai conseguir inaugurar o cemitério no último episódio e o morto há-de ser ele próprio.

Lembrei-me hoje desta magnífica criação de Paulo Gracindo quando via os telejornais, a propósito da famigerada vaga de frio. É um drama. Primeiro porque o frio não se vê, o que torna difícil mostrá-lo na tv. Depois porque as estações estão, como habitualmente, ávidas de acontecimentos sensacionais, de muito sangue, e não há meio de o frio cumprir o seu dever em benefício das audiências. Às tantas, o pivot de serviço chama o repórter de serviço creio que no hospital de Bragança, que tem esta frase lapidar e verdadeiramente ‘odoricana’: a vaga de frio ainda não chegou ao hospital. Que raio, grande decepção: nem um velho congelado, nem uma criança enregelada, nada! Em entrevista a um responsável de um hospital, pergunta-se que medidas foram tomadas para fazer face à vaga de frio. Responde o médico, à procura de melhor: ‘comprámos umas mantas’!
Esta febre de notícias a qualquer preço começou por dar cabo da nossa imprensa desportiva e, desde há uns anos para cá, transformou a informação televisiva num imenso e mal cheiroso monte de porcaria. Não presta, não presta, não presta. Não há o mínimo de bom senso e sensibilidade, que são, pelo menos desde Jane Austen, os principais requisitos para qualquer aventura humana.
Pode ser que um dia destes, sem se aperceberem, chegue o derradeiro episódio, e sejam as próprias estações a inaugurar o cemitério no enterro que tão avidamente procuram televisionar.