January 24th, 2005

rosas

contra o esquecimento

Uma sessão especial da Assembleia Geral das Nações Unidas assinala hoje os 60 anos da libertação dos prisioneiros dos campos de concentração nazis.
Na Pública de ontem, a história de Judith, de Riga, Letónia, sobrevivente do campo de Stutthof, na Polónia, residente em Lisboa.
Curta entrevista a Serge Smulevic, sobrevivente de Auschwitz:

«Para se sobreviver aos campos, é preciso ter esquecido?
De modo nenhum.
Para que a reconciliação seja possível, é indispensável esquecer?
Não estou a pensar em nenhuma reconciliação. É impossível. Também não existe esquecimento possível.

Durante estes 60 anos que decorreram desde o fim da II Grande Guerra, os sobreviventes têm sido a nossa caução contra o esquecimento. A nossa muralha contra o esquecimento. Contra o tempo e a sedimentação.
Mas perturba-me pensar como poderemos resistir daqui para a frente. Quando passarem 80, 100 anos, e já não houver sobreviventes que nos lembrem. Que nos mostrem o fundo de nós próprios, aquele magma destruidor e selvagem que nos arrasta à barbárie com a maior das facilidades. Assusta-me que, na ausência abrasadora dos que sobreviveram, o horror se possa trivializar, tornar-se uma efeméride, uma página. Pior: uma página em branco de um livro escuro e sombrio. Negro como a alma de um homem que pinta coloridas e bucólicas paisagens numa tela.