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closer
rosas
innersmile
Fui ontem ver Closer, o filme do Mike Nichols, e confesso que estou um bocado em apuros sem saber muito bem o que pensar de filme, quanto mais o que escrever sobre ele. Bom, quando não sabemos como abordar um assunto, não há nada como fazer uma manobra de diversão, e por isso começar talvez pelo facto de o Mike Nichols ser um dos meus realizadores de referência (o que não é a mesma coisa do que dizer que é um dos meus cineastas favoritos), sobretudo porque realizou, há uma infinidade de tempo, aquele que é um dos meus filmes preferidos de sempre, o The Graduate. Para além desse, fez uma série de filmes bastante interessantes, como a comédia Working Girl, que me fez apaixonar pela Sigourney Weaver, que no filme era a má da fita, o Birdcage, o Silkwood, com a Meryl Streep, entre outros. Mais recentemente, foi o realizador da importante série de televisão Angels in America.
Vindo do teatro, o Mike Nichols preserva uma indiscutível forma teatral de abordagem ao cinema. O que não significa que o seu cinema seja teatro filmado, mas conserva uma certa densidade, uma contenção, que se nota por exemplo, na forma como ele dispõe as personagens, sempre muito frente a frente, sempre recorrendo muito ao grande plano, até na forma como as sequências se organizam como os actos de uma peça.
Tudo isto é verdade em relação a Closer, uma interessante adaptação de uma peça de teatro inglesa que põe em cena, quase como se se tratasse de uma exposição, quatro personagens que se cruzam e entrechocam todas entre si (interessante que o título em português de Silkwood foi, se bem me lembro, reacção em cadeia!), num jogo de atracção e repulsa em que o amor e o isolamento (ou a estranheza, a condição de se ser estranho; e somos sempre e apenas estranhos em termos relacionais, ou seja, só somos estranhos em relação a alguém ou alguma coisa) são os factores desencadeantes.
O filme mantém a estrutura teatral da sucessão dos quadros, que se sucedem ao longo do tempo, quase como se fossem fotografias dos meses e dos anos que vão decorrendo, e dos vários espaços por onde as relações entre os protagonistas vão acontecendo. É um filme muito forte, muito denso, em que os sentimentos e as emoções das personagens são sempre analisadas com o rigor de um anatomo-patologista, mas não de uma forma fria e rigorosa, antes como se se tratasse de um cadáver de um crime violento, em que os despojos que são expostos perante os nossos olhos estão sempre no limite daquilo que suportamos olhar.
Há coisas que eu acho muito débeis no filme. Em primeiro lugar, as quatro personagens parecem-me muito pouco recortadas do ponto de vista psicológica, quase como se fossem manequins a quem se vestem as roupas daquelas emoções particulares. Nunca percebemos muito bem o que as faz mover, não naquele sentido de perceber o que querem, mas mais no de sentir o que as anima, o que lhes dá fôlego. Este aspecto, no meu caso pessoal, comprometeu um pouco a minha adesão ao filme. Depois, o acting dos actores parece-me falhar um pouco o objectivo. Há sempre uma tensão muito grande, como se estivessemos sempre à beira de acontecer alguma coisa, que não me parece muito bem conseguido; resulta em teatro, porque no teatro os actores estão numa arena e nós estamos ali a viver e a sentir a tensão que se estabelece entre eles. Mas o cinema cria distância, o campo e o contra-campo retiram magnetismo ao olhar, e por isso resulta num tom que por vezes roça a histeria.
Um dos pontos fortes do filme são as interpretações. As duas estrelas consagradas, Julia Roberts e Jude Law, empalidecem um pouco face à excelência das interpretações da Natalie Portman, que rouba nitidamente o filme, é o seu motor, e o Clive Owen que transpira uma sensualidade quase animal, como se estivesse sempre a um passo de romper os limites da racionalidade humana, e que na minha opinião é quem empresta ao filme a maior parte da sua intensidade dramática.

Já no fim do filme, lembrei-me que já tinha visto uma versão portuguesa desta peça, com o título Quase, levada à cena pelo Teatro Aberto ainda no barracão da Praça de Espanha, e com as interpretações de Catarina Furtado, Diogo Infante, Ana Nave e Virgílio Castelo, numa encenação de João Lourenço. Lembro-me muito pouco do espectáculo, apesar de não ter sido há tanto tempo como isso (1999). A minha recordação mais impressiva é a da cena do chat, talvez porque na altura isso ainda era uma relativa novidade (para mim, pelo menos). Mas confesso que se não me tivessem dito que a peça que deu origem ao filme já tinha sido encenada em Portugal, com a Catarina Furtado, eu provavelmente nem me teria lembrado de que a tinha visto.
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