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diário de campanha
rosas
innersmile
Não tenho grande simpatia pelo Bloco de Esquerda, nem particularmente pelo seu líder Francisco Louçã, apesar de o achar com estofo e preparação (sobretudo com preparação; hoje os políticos, sobretudo os mais jovens, não se preparam, não estudam, não se formam e informam, habituados que estão a que os lugares e os cargos tenham mais a ver com compadrios e influências e favores do que com competência) para ser um dos principais políticos portugueses. Mas hoje irritei-me quando o Público, nas primeiras 12 páginas, trazia 4 notas críticas a Louçã a propósito da sua intervenção sobre o tema do aborto no debate com o Portas: um artigo de fundo, um editorial, a coluna de opinião de uma senhora reaccionária que lá escreve aos Sábados, e uma nota de descida no barómetro. E todas as referências alinhavam na crítica ao que consideraram ser uma salazarenta manifestação de superioridade moral e ‘genética’ de Louçã. Ora, eu ouvi o debate e das duas uma: ou os senhores do Público não estavam muito atentos, ou estão a distorcer as coisas propositadamente.
Com efeito, e ao contrário do que se diz no jornal, nunca Louçã negou a Portas o direito de se pronunciar sobre o aborto pelo facto de não ser pai. Esta parte final do debate começou com Portas a manifestar, no seu ar chapa cinco de beata mística, que a diferença entre as posições do cds (já repararam como Portas deixou cair o ‘partido popular’ que ele próprio criara para regressar ao velho e mais prestigiado cds?!) e do Bloco relativamente ao aborto, é que quando há uma criança para nascer, o cds respeita o direito à vida dessa criança e o Bloco não! Ou seja, o cds defende o direito à vida e o Bloco não. Ou seja, o cds é um partido civilizado e o Bloco é um partido bárbaro que não se incomoda com a morte de crianças.
E foi contra este, ele sim, moralismo de pacotilha, que serve para enganar os menos esclarecidos, que Louçã reagiu, dizendo a Portas que não lhe reconhecia legitimidade para se arvorar em defensor do direito à vida. E a seguir esfregou-lhe o pano encharcado na tromba: como é que me pode acusar de não respeitar o direito à vida se até já gerei uma vida e o senhor nunca o fez. Quando muito, Louçã poderá ser acusado de demagogia ao invocar para o debate o sorriso da filha que já segurou nos braços. Mas figuras de estilo fazem parte da retórica. E a verdade é que é intolerável a arrogância de Portas que, repetidamente, se arvora em ‘dictator’ da moral e dos bons costumes, do que é bom e do que é mau.
Por isso, não acho que a intervenção de Louçã tenha sido excessiva. Respondeu muito bem, e muito bem desmontou o slogan e o cliché moralista e hipócrita com que Portas enche a boca.

Mas já que estou com a mão na massa, aproveito para dizer que o meu momento preferido do debate foi quando, instado pelos jornalistas numa questão que tinha, se não estou em erro, a ver com as medidas contra a evasão fiscal no orçamento, ou com as novas regras orçamentais de tributação da banca, o Portas, para eludir a resposta, andou a fazer intróitos e considerandos. Finalmente, um pouco perdido com o seu próprio discurso, reorganiza o raciocínio com um «e depois desta... e depois desta», ao que o Louçã atira um imperturbável «fuga»! Bem, o homem passou-se totalmente e, com aquele dedinho em riste que lhe é peculiar, atira para o Louçã «eu não lhe admito que me estique o dedo»!!!! Cúmulo do ridículo: Louçã sereno e imperturbável, com aquele sorriso sacaninha que ele tem particularmente acentuado por saber que tinha irritado o adversário, e o Portas de dedo em riste a acusar o outro de lhe esticar o dedo. Foi lindo.