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visitação
rosas
innersmile
Há certos dias em que a vida é tão intensa, tão profunda, que só as palavras do poeta nos podem redimir do silêncio absoluto. Como as deste poema do Rui Knopfli:

Perfura-me o sono
essa luz estelar, basculante,
puríssimo cristal de lágrimas.
Minha comprida noite desabitada
se enche com a mansa luz dorida
desses olhos irmãos do meu silêncio.
Um pouco de ternura incomensurável
pousa os brandos dedos sobre o meu ombro,
minhas pálpebras, meu sono inquieto
e adoça a nudez fria deste espaço
ora visitado pelo teu rosto querido.
Cerro os olhos de cansaço, na boca
um travo salgado, sabor de mar,
resto de amargura antiga. Ou serão lágrimas
tuas, esse sal vivíssimo, que sinto nos lábios,
como se tivesse beijado os olhos teus tristíssimos?

grimsley
rosas
innersmile
É um bocado idiota escrever sobre um livro antes de o ter acabado de ler. Mas também já me faltam poucas páginas para terminar a leitura de ‘Conforto e Alegria’ É o segundo livro do Jim Grimsley que eu leio: o anterior foi ‘Rapaz de Sonho’, e sei que ele tem mais um traduzido em português, ‘Pássaros de Inverno’, todos publicados pela Teorema.
Grimsley é aquilo que se pode denominar com segurança, um ‘autor gay’. Muitos autores recusam essa classificação, e percebe-se porquê, reduz muito o contingente de possíveis leitores, quer por uma questão de interesse quer de preconceito. Mas nunca me soou que o Grimsley recuse o epíteto, aliás ele é considerado dos mais clássicos e populares escritores gay.
A verdade é que os livros dele, pelo menos os dois que eu li, passam-se num universo de homossexualidade masculina, ou melhor os seus temas são dizem particularmente respeito aos homossexuais. Os dois livros que eu conheço têm a ver com a possibilidade do amor, com as suas dificuldades, os obstáculos, entre dois homens, e há uma série de referências, não no sentido de códigos mas mais no sentido das emoções e dos sentimentos, que, na minha opinião, podem ser mais facilmente identificados e reconhecidos por homossexuais.
Estou a gostar bastante mais deste ‘Conforto e Alegria’ (só o título já é notável) do que gostei do outro que li. Não tanto pelo tema, mas porque há uma tranquilidade narrativa que dá ao livro um tom suave, deslizante. Mesmo as maiores tensões dramáticas são resolvidas com uma certa serenidade. De modo que o livro é bastante agradável de ler. Além disso, os personagens são bem construídos, têm corpo e densidade, são aquele tipo de personagem de quem vamos gostando, não por simpatia ou identificação, mas porque os vamos conhecendo cada vez mais e melhor.
Neste ponto da leitura, há ainda problemas e dificuldades em aberto, que eu não faço ideia como vão ser resolvidas. Ou seja, não sei se o livro vai ter um final feliz. Mas todas noites quando fecho o livro e apago a luz, faço-o com uma enorme sensação de bem estar, com serenidade, com optimismo: o livro, apesar de mal traduzido, transmite esse sentimento, o de que há lugar no mundo para histórias de amor assim, ternas e difíceis, tranquilas e angustiadas, que são protagonizadas por dois homens.
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