January 20th, 2005

rosas

bão balalão

Hoje apetece-me chorar pelo meu amigo. «Não é de tristeza, não é de aflição, é só de esperança», como no poema de Manuel Bandeira. Comove-me a sua desamparada felicidade. Comove-me ele acreditar na sua desamparada felicidade, apesar de eu o conhecer bem o suficiente para saber que ele não é do tipo de acreditar na primeira ilusão (mas também não sei se ele é mais do meu tipo, do que acredita na última ilusão; ou se será antes do tipo, mais corrente, que acredita numa ilusão intermédia...). Mas comove-me ele acreditar ainda que apenas por um segundo. Comove-me ele vestir essa felicidade, mostrá-la aos outros, mostrar-no-la.
Se calhar apetece-me chorar antes por mim. Porque me apetecia estar lá ao pé dele, para partilhar a crença numa desamparada felicidade. Apetecia-me falar com ele, vê-lo brilhar. Fazer-lhe perguntas que não se podem fazer na distância. Há coisas que só se podem dizer, perguntas que só se podem formular, se estivermos a uma distância suficientemente curta para segurar as palavras com os olhos. Caso contrário, as palavras cegam, turvam-se, confundem-se, baralham-se.
Traduzo aquele ditado inglês que diz que as pastagens são sempre mais verdes nas terras do vizinho. Para dizer que se calhar apetece-me chorar antes por mim. Porque me adivinho mais feliz a respirar o ar quente que ele respira e estou aqui, ao frio, a imaginar que a sua desamparada felicidade só pode ser tropical. Porque é uma felicidade leve com a brisa, uma felicidade habituada a saltar para o passeio, quando vem um camião desgovernado a descer a rua da desesperança. Porque é uma felicidade epidérmica, pendurada num sorriso.
Em vez de chorar ouço música. Quero dizer, finjo que ouço música. Acredito na desamparada ilusão de que estou a ouvir música. Vou buscar ao sono da memória mais antiga, ao pó daquela memória que vem dos tempos em que ainda não éramos bem o que viríamos a ser. Penso no meu amigo enquanto ouço, de cor (de coração?), o Ney Matogrosso e os Secos e Molhados a cantar o ‘Rondó do Capitão’:

Bão Balalão
Senhor Capitão
Tirai este peso
Do meu coração
Não é de tristeza,
Não é de aflição:
É só de esperança,
Senhor capitão!
A leve esperança,
A aérea esperança...
Aérea, pois não!
- Peso mais pesado
Não existe não
Ah, livrai-me dele,
Senhor capitão!