January 12th, 2005

rosas

ele, cláudio

Tenho estado a ver os episódios de 'I, Claudius', que o Retorta me emprestou. Vi a série televisiva há vinte e tal anos, talvez em 78 ou 79, quando passou ainda a preto e branco na rtp, e nunca mais a tinha revisto. Lembro-me de ir acampar com o meu melhor amigo na altura, e de corrermos os cafés de S. Pedro de Moel e de Alcobaça à procura de um que tivesse o televisor sintonizado na série (sim, na época ainda não havia sport tv, e os televisores dos cafés passavam séries da BBC sobre imperadores romanos. Impensável, não é?)
O Retorta sumariou com rigor os factores de sucesso desta série: um óptimo texto de base, quer o livro do Robert Graves, quer o soberbo argumento de Jack Pulman; actores excelentes, capitaneados por Derek Jacobi no papel principal; e uma realização meticulosa, de Herbert Wise. Da conjugação destes três factores destaco um aspecto notável: o sentido de humor que atravessa toda a série, com uma ironia distanciada sempre presente, quer nos diálogos quer no próprio olhar que a série deita ao destinos dos seus personagens.
Mas há outro aspecto que me parece absolutamente fundamental, que para mim é a grande marca da série e não tenho dúvidas que contribui muito para o seu sucesso, nomeadamente para ter resistido tão bem à passagem do tempo, mantendo toda a actualidade e toda a frescura. Tem a ver com o facto de no plano narrativo, toda a série se passar num ambiente doméstico, no recesso da intimidade, e isto para mim é o seu grande trunfo de modernidade. O mundo passa lá fora, e neste tempo Roma era o mundo, e nós, sentados na tranquilidade do peristílo, ou reclinados no excesso do triclínio, bebericando uma taça de vinho (que poderá ter sido envenenado pela pérfida Lívia) ou colhendo um fruto da figueira (de novo atenção a Lívia), vamos assistindo ao destino do mundo, e à forma como esse destino se altera em função de uma palavra dita em excesso, de um casamento que repara uma infidelidade, de uma promoção que premeia um favor secreto, de um exílio que castiga um destemperamento. Não há massa, não há mole, não há searas ondulando ao vento, não há ondas sulcadas por quilhas, não há o troar assustador das legiões. Há apenas o sussurro das vozes conspirativas no escritório e os gemidos langorosos e lascivos no quarto.