January 9th, 2005

rosas

finding neverland + petra

Ah, adorei o Finding Neverland, que achei que tinha um toquezinho 'burtoniano' (e não apenas por ser com o Johnny Depp), apesar de ser mais luminoso do que os filmes do tio Tim.
O filme tem tudo para eu gostar dele, desde logo tratar-se de uma história literária: na verdade o filme, mais do que uma biopic do J.M Barrie, é a história do nascimento de um livro, e a narrativa é muito eficaz a cruzar permanentemente as duas linhas da história, a da 'vida real' das personagens, dos acontecimentos quotidianos, e a do livro, a forma como surgem as personagens do livro e as suas peripécias. Ao ponto de os dois fios se começarem a entrelaçar cada vez mais e, no final, já não conseguirmos destrinçar o que é que pertence à vida de todos os dias e o que pertence à neverland.
Depois, trata-se de um filme 'feelgood', são todos muito bem intencionados, o filme apela àquilo que nós temos de melhor, ainda que muitas vezes passe por demasiado ingénuo e infantil.
Outra coisa a favor do filme é, claro, o Johnny Depp, que é um tipo notável, ele parece que nem existe, de tal forma consegue desaparecer dentro das personagens. E o mais notável, é que é tudo feito num registo muito subtil, sem grandes artifícios representativos e dramáticos. Bem, o mais notável de tudo é mesmo que ele está sempre tão bonito.
A propósito, o filme é assim um bocadinho para meninas, aquilo que se chama um 'girlie movie', com algumas cenas lacrimejantes q.b., mas as vantagens de se ser gay é que se pode gostar destes filmes sem perder demasiado a face. Bem, isto não quer dizer que eu tenha chorado no filme, é raro comover-me no cinema, só me dá para ficar assim com a lágrima no canto do olho quando saõ aquelas cenas muito lamechas, muito mal-feitas, mesmo para explorar os sentimentos mais básicos e fáceis. Quando as coisas são mais subtis, como neste filme, não me dá para isso. Bem, há sempre a cena final do 'Clube dos Poetas Mortos' em que, nessa sim, fico sempre com a gargante apertada (em sentido literal) quando a vejo, e por mais que a veja.

Depois do cinema fui a Pombral, ao Projecto Jazz, ouvir a Petra a cantar ao vivo. A formação era quarteto: além da voz, Gualdino Barros, na bateria, e, segundo percebi, o mentor da sessão, Hugo Antunes no contrabaixo, e um extraordinário Rui Caetano no piano eléctrico e, pareceu-me, na condução musical. A Petra cantou muitíssimo bem, apesar de se queixar, e isso notar-se um bocadinho, que estava muito presa ao acompanhamento. Mas sempre que conseguia, fugia e mostrava aquela capacidade de voar por cima das notas e das palavras que já conhecia do blues. Além disso, ela tem uma dicção perfeita, percebe-se cada palavra, e, mais, percebe-se a intenção de cada palavra, a ondulação de cada nota, de cada frase musical, de cada verso. Uma das grandes qualidades da Petra é que ela realmente diz cada palavra, transmite-nos o que está escrito na letra da canção, dá significado e intenção e sentido às palavras que está a cantar, ao contrário do que acontece com muitos cantores que se limitam a mostrar a voz, a colorir a música com o texto, e que tanto podiam estar a cantar aquilo como a lista das compras.
Apesar de no blues a Petra ser gigante, um monumento de liberdade e expressão, gostei muito de a ouvir no jazz, a voz ganha uma suavidade, uma capacidade de insinuação, uma sensualidade, fica sexy e quente, mas não é aquele quente forte do blues, não, é um quente macio, aconchegante, assim de estar numa noite de inverno enrolado em cobertores quentes e fofos. Bom, deixa-me controlar... Os meus dois momentos preferidas foram o Old Devil Moon, porque descobri esse standard há pouco tempo e foi uma surpresa deliciosa ouvi-lo pela voz da Petra, e I'll Concentrate On You, por ser do Cole Porter, e porque a Petra cantou divinamente, sempre a voar, a voz livre a brincar com a melodia e com as palavras. Caramba, é um privilégio tão grande ouvi-la cantar e logo a seguir ter direito a dose reforçada de abraços.