January 6th, 2005

rosas

pedro e inês a dois

Passou ontem na rtp2 o registo de ‘Pedro e Inês’, de Olga Roriz, realizado por Rui Simões, que suponho ser o cineasta de ‘Bom Povo Português’, esse filme mítico e mágico sobre a utopia que Portugal viveu após a revolução de Abril.
Naturalmente que o filme da peça é muito diverso da experiência do espectáculo em palco. Pareceu-me, sobretudo, mais limitado, ou seja, fiquei com a impressão de que na montagem houve coisas que ficaram de fora, de que a peça era mais rica, mais completa, mais extensa, que tocava mais baías. A minha memória carregava uma série de emoções, de impressões, de sensações, que não se reencontraram na experiência de ver o filme. Claro que muito provavelmente, porque na função ao vivo há uma tensão, uma intensidade, uma energia, uma electricidade que carrega o ar, que exacerba e amplia o modo como nós recebemos o espectáculo.
Mas devo dizer que também achei que o realizador carreou para o filme elementos próprios do cinema que acrescentam, e que o transformam num objecto autónomo em relação à peça, de tal forma que o que vemos no ecrã não é uma mera filmagem ‘despersonalizada’ do que se passava em palco. Há coisas fabulosamente cinematográficas neste filme: o contraste rigoroso e recortado entre os corpos iluminados e a sombra escurecida do resto do plano, a composição e o enquadramento dos planos, sempre muito depurados e simples.