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2046
rosas
innersmile
É como quando as moedas nos escorregam do bolso das calças e ficam presas entre o assento do carro e o forro: vemo-las, podemos tocar-lhes, mas não há maneira de as conseguirmos tirar cá para fora, de modo a retornarem ao conforto das algibeiras. Assim, 2046 filma o amor: não o amor em si, mas as suas erupções, os rios de lava que escorrem pelas faces perfeitas dos seus protagonistas, as pausas que suspendem o bater do mundo explanado numa pauta.
O filme de Wong Kar Wai não tem propriamente um plot, mas uma linha narrativa: um escritor escreve um livro de ficção científica sobre 2046, um lugar no tempo como no espaço (pode ser um ano ou um quarto de hotel), onde vamos recuperar as nossas memórias (amorosas) perdidas mas de onde não podemos regressar. E tem uma galeria de criaturas belíssimas, homens e mulheres cuja beleza exterior esconde, ou disfarça, ou protege, ou alimenta, um vulcão que parece estar sempre pronto a explodir.
O que é espantoso no cinema do WKW é a sua completa desenvoltura narrativa, uma maturidade tão grande que se torna um espaço de infinita liberdade, um palco de luz projectada onde todos os espectros podem ser convocados e todas as fantasias podem ser encenadas e onde todas as angústias são nostálgicas como uma canção latina dos anos cinquenta. O filme estrutura-se como se fosse um objecto poético, com os seus tempos, as suas métricas, as suas rimas, os seus temas, as repetições, as voltas, os motes, as redondilhas. E naturalmente com as suas canções, que são essenciais na percepção de 2046 como um filme soberbo sobre alguma coisa que podemos tocar, mas jamais saberemos como nomear.
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