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livros 2004
rosas
innersmile
A grande descoberta literária do ano de 2004 foi sem dúvida, a descoberta, pela mão do Saint, da literatura brasileira, ou, pelo menos, da parte dela que me foi revelada. E como o nosso amor pelos livros anda sempre à volta de quem os escreveu, o escritor que este ano entrou para a bagagem dos meus escritores favoritos, aqueles sem os quais já não nos conhecemos, foi o Caio Fernando Abreu. Li dele sete ou oito livros, a grande maioria de contos. Destaco ‘Os Dragões não Entram no Paraíso’, que foi sem dúvida o livro que este ano mais me fez chorar. Mas do Caio houve ainda outros dois livros que me ficaram: ‘Pequenas Epifanias’, que comecei a ler ainda no quarto de hotel do Rio de Janeiro, na própria noite em que o Saint mo emprestou, e não há amor como o primeiro, e ‘Onde Andará Dulce Veiga’, um livro com um sortilégio hipnótico, que me deixou obcecado e ao qual volto de vez em quando para ler um pedacinho. É um romance curto, ou uma novela, e apesar de o Caio ser sobretudo um contista, foi através deste livro que melhor o compreendi, que melhor percebi a sua literatura.

Outro escritor brasileiro que o Saint me deu a conhecer e que passa a vajar comigo, foi o Sérgio Sant’Anna, sobretudo através do volume de contos ‘O Voo da Madrugada’, livro premiado no Brasil e editado cá pela Cotovia e que é, nem mais nem menos, uma obra-prima, e muito possivelmente um dos melhores livros escritos em língua portuguesa neste dealbar do novo século lusófono. Caramba, o livro do Sérgio é daqueles que nos fazem sentir orgulho em falar português, e nos fazem agradecer aos deuses todos o facto de o Brasil ser um país imenso e que vai levar a nossa língua, a língua que nós inventámos, directamente para o futuro.

Se o Brasil está a levar a língua portuguesa para o futuro, só posso esperar, ou mais precisamente desejar, que lá no futuro a língua encontre os países africanos que falam e escrevem em português. Principalmente, por razões afectivas, Moçambique. Muitas das minhas leituras este ano continuaram a fazer-se em volta da literatura, sobretudo da poesia, mas também do ensaio literário, de Moçambique. Se o ano passado tinha sido o ano da leitura de Rui Knopfli, este ano foi sobretudo um ano de Craveirinha, José Craveirinha. Claro que o grosso da obra de Craveirinha já eu conhecia, mas este ano trouxe-me um livro há muito perseguido (e que me foi oferecido por amigos, o que é sempre mais fabuloso), ‘Babalaze das Hienas’, um murro no estômago em forma de verso, dois volumes póstumos de poemas, ‘Poemas da Prisão’ e ‘Poemas Eróticos’, e o volume de contos ‘Hamina e Outros Contos’. Muitos poetas e muitas descobertas, sobretudo entre os mais novos, que tenho menos oportunidade de conhecer, na Antologia de Poesia de Moçambique, organizada por Nelson Saúte, ‘Nunca Mais É Sábado’, uma mina e muitas jóias. Finalmente, na ficção, um outro livro extraordinário, ‘As Visitas do Dr. Valdez’, de João Paulo Borges Coelho, a mais pungente história que eu li sofre o fim de um tempo, o do colonialismo, e o nascer de outro, o de um país novo e que promete futuro. Ainda sob temática moçambicana, li ‘É Proibído Pôr Algemas nas Palavras’, uma biografia escrita por Paul Fauvet sobre o malogrado jornalista moçambicano Carlos Cardoso.

Confesso que, dos mais de 50 livros que comprei este ano, entre o Brasil e Moçambique não sobrou muito mais. Em português de Portugal, destaco o ensaio autobiográfico ‘Amar Não Acaba’, do Frederico Lourenço (de quem saiu também a colecção de ensaios ‘Grécia Revisitada’), os ensaios reunidos de Alexandre O’Neill em ‘Uma Coisa em Forma de Assim’, dois novos livros de Cardoso Pires a juntar à colecção (contos, ‘Jogos de Azar’, e ensaios, ‘E Agora, José?’), e a revelação de António Gregório, colega aqui do livejournal, que publicou ‘Uma História de Desamor Trezes Vezes.

Na literatura estrangeira, mais um romance traduzido de David Leavitt, ‘O Corpo de Jonah Boyd’, e de quem a Asa editou um volume de viagens dedicado a Florença, que, juntamente com Paris, de Edmund White, inaugurou uma colecção muito bonita que, esperemos, tenha prossecução. De realçar que estes dois volumes editados foram ambos escritos por dois dos mais conhecidos escritores gay. Um dos livros que mais gostei de ler este ano foi ‘O Estranho Caso do Cão Morto’, de Mark Haddon, que relata as peripécias vividas e vistas pelos olhos de um jovem autista. Comovente e divertido. Finalmente, quero ainda destacar ‘Três Cavalos’, do italiano Erri de Luca, um livro belíssimo, de uma escrita poética e profunda.