?

Log in

No account? Create an account

monstros
rosas
innersmile
Vi ontem em dvd o Monster, que deu um oscar (merecidíssimo, fiquei a achar) à Charlize Theron. Confesso que o filme não me tinha despertado muito a atenção quando passou nas salas, mas gostei muito. A realizadora, Patty Jenkins consegue um balanço muito bom entre o road movie, o filme com mensagem social e a história de amor, que é, penso eu, a perspectiva que o filme adopta em definitivo. Como digo, estes três pontos de vista estão muito bem equilibrados. Outro aspecto que me parece muito positivo é o filme ser, apesar de tudo, muito contido, nunca cedendo ao caminho mais fácil de explorar o lado mais pesado e dramático do tema. Por outro lado, sendo um filme bem intencionado, mostra um grande respeito pela memória da sua protagonista, evitando o tom paternalista e demasiado simpático de justificar as suas acções.

A minha relação com a Susan Sontag, que morreu há dois dias vítima de leucemia sempre foi mais icnográfica do que outra coisa: admirava-lhe o estatuto de intelectual e a modernidade da intervenção, e a coragem com que viveu um casamento de mais de vinte anos com a Annie Leibovitz, e que a transformou num ídolo gay.
Nunca li nenhum dos seus romances, e li apenas de raspão alguns dos seus ensaios sobre fotografia. Há no entanto um elo mais profundo que me liga a Sontag e que me fez sentir a sua morte como uma perda.
O único trabalho dela que li com alguma seriedade foi o ensaio ‘Illness as a Metaphor’, sobre o cancro, ou melhor, sobre o que é viver com o cancro. Muito do livro baseou-se na sua experiência pessoal (Sontag teve cancro da mama, nos anos 70) e é um livro que, na minha opinião, foi escrito sobretudo para ser lido como eu o li, tentando encontrar um lugar na minha vida para o facto de ter tido um cancro. O livro tinha essa perspectiva, tentar colocar o cancro no seu sítio, e julgo que Sontag o escreveu precisamente porque sentiu essa necessidade de pensar a sua vida em função do facto de ter tido um cancro.
Quando temos uma doença grave, o peso psicológico desse facto, da ameaça à vida, é tão grande, que passa a ocupar, digamos, todo o écran da nossa vida, toda a nossa vida se passa a estruturar em função da doença, do medo da morte e do enorme esforço pela sobrevivência, quer física quer emocional. De tal forma esse peso é determinante que, quando finalmente sacudimos a ameaça e nos vemos livre do perigo, ao mesmo tempo que há uma enorme sensação de alívio e de vitória, há também uma enorme sensação de vazio: de repente, aquela coisa que durante muitos meses (ou anos, como aconteceu comigo) determinou e condicionou a nossa vida, pura e simplesmente desapareceu, perdemos o grande motor que determinou toda a nossa existência e todas as nossas acções. De repente, o centro da nossa vida deixou de existir. E isso é tanto mais difícil quanto apesar de nós ainda estarmos determinados em função da doença, para os outros, para a vida quotidiana, esse facto já é ‘yesterday news’, já não comove ninguém à nossa volta.
Foi uma coisa que tive de aprender e confesso que me custou, relativizar o papel da doença, do cancro, na minha vida, tirar-lhe importância, torná-lo quotidiano. E foi aí que o livro da Susan Sontag me ajudou, porque o que ela fez com o livro, entre outras coisas, claro, foi relativizar o cancro, tirar-lhe importância, fazer com que ele seja mais um assunto do dia-a-dia com que temos de lidar, e não esse monstro que se instala e toma conta das nossas vidas.
Tags: