December 27th, 2004

rosas

the phantom of the opera

Apesar de gostar muito do género musical, tanto no cinema como no palco, a verdade é que não acho grande piada ao Andrew Lloyd Weber (também conhecido por Andrulóide). Não sou apreciador do seu estilo musical (apesar de lhe respeitar a quantidade e a eficácia dos seus scores musicais), acho que os seus musicais se levam demasiado a sério (faltando aquela pontazinha de auto-ironia e de gozo puro que têm, por exemplo, os musicais da dupla Kander & Ebb), alinham por baixo em termos de gosto e de exigência cultural, resultando tudo isto em espectáculos longos, um pouco enfadonhos, de um romantismo muitas vezes exacerbado. O que é inegável, no entanto, é que ALW definiu um determinado padrão do teatro musicado actual, de grande entretenimento popular e com um nível de sofisticação de produção muito assinalável. Não haja dúvidas que a página dedicada ao ALW na história do teatro do século XX vai ser imponente.
O que se pode dizer então da versão fílmica de The Phantom of the Opera, é que, para o melhor e para o pior, é uma transcrição para cinema muito fiel do original dos palcos. Ou não estivesse o próprio ALW totalmente empenhado na produção do filme. Para o pior, porque, tal como o musical dos palcos, também este filme do Fantasma é longo, pesado, mais ró-có-có do que propriamente barroco, por vezes enfadonho, xaroposamente romântico, e com um acumular de tiques e de sinais exteriores de riqueza que resultam numa narrativa frágil e destituída de tensão dramática. Para o melhor, porque é uma versão tão fiel tão fiel da peça (apesar dos desenvolvimentos cinematográficos da narrativa, como o flashback, as cenas nos bastidores da ópera, o maior destaque para os personagens secundários) que é quase como se fosse uma recordação do próprio musical. Enquanto, por exemplo, o filme de Chicago é uma recriação muito cinéfila do musical, afastando-se decisivamente da versão de palco, aqui estamos perante uma verdadeira versão filmada, não no sentido em que o que vemos é um espectáculo filmado, mas mais no sentido em que o que vemos é verdadeiramente uma versão em cinema da peça, o mesmo espírito, a mesma alma, em suma a mesma ideia de espectáculo. E isso é positivo na medida em que quem vai ver este filme com os olhos e a memória habitados pelo Fantasma no palco não fica nada defraudado, o filme corresponde com uma exactidão muito rigorosa às expectativas de quem o vai ver. Neste sentido, podemos dizer que é um filme para os fãs do musical, que agora, para além do programa, do cd, da t-shirt e da caneca, também podem comprar o dvd do filme. Mas é também útil para todas aquelas pessoas que sempre desejaram ver o Fantasma em palco mas nunca tiveram oportunidade, pois o que vão ver é quase o que se passa no teatro.
Uma palavra para os actores, não tanto o trio de protagonistas, que não achei muito impressionantes, mas um punhado de secundários muito interessante, com destaque para a Miranda Richardson e o Simon Callow, que eu adoro e de quem tenho pena que apareça em tão poucos filmes hoje em dia.

Assim como há aquela inspecção económica que vistoria as condições dos restaurantes, também devia haver uma para avaliar as condições que as salas asseguram aos espectadores que pagam bilhete, e que não é tão barato como isso. Na sessão de ontem, no Girassolum (Castello Lopes), a qualidade da imagem projectada (seria da cópia? Mesmo assim...) era péssima, havendo alturas em que as legendas estavam tão desfocadas que eram praticamente ilegíveis. Quanto ao som, pura e simplesmente entrou em colapso total, e chegavam a ser ridículas as variações e as falhas do som, sobretudo nos números musicados. Acresce que esta sala é desconfortável, muito estreita (resultou da divisão longitudinal de uma sala em duas, a sala dois pouco mais larga é do que corredor lá de casa), não há espaço entre as filas para pôr as pernas e os assentos das cadeiras estão descaídos. Uma tortura. Ontem com a agravante de que o público (que não era adolescente, era até bem crescidinho) não se sabe portar: conversas em voz alta, atender os telemóveis durante a projecção, enfim, uma feira.