?

Log in

No account? Create an account

(no subject)
rosas
innersmile
Há mais de vinte anos que compro regularmente as duas edições anuais da revista Time, a que elege ‘a pessoa do ano’ (quando comecei a comprar ainda não se viva a época do politicamente correcto e chamava-se ‘homem do ano’), que normalmente é o nº 52, e o nº 1, que traz a revista em imagens do ano que passou. Assim, que me lembre, só falhei, porque não encontrei à venda, a edição da ‘person of the year’ do ano 2000 (que foi o Bush, por ocasião da sua primeira nomeação – custa falar em eleição).
De certa forma, percebo os critérios da revista, que é bastante conservadora, mais do que a concorrente Newsweek, que elegem Bush como ‘pessoa do ano’ de 2004, sobretudo pelo facto de ter conseguido a reeleição (desta vez sim, pode-se usar o termo) aparentemente contra todas as previsões, ‘against all odds’, como se diz em inglês. Além disso, o critério fundamental da escolha não é moral, é puramente jornalístico: é escolhida uma pessoa que influenciou marcadamente o mundo, e não necessariamente que o tenha influenciado de forma positiva.
Estive a ler a série de artigos desta edição especial, e admito que saio da leitura com a minha antipatia por Bush intacta, ou seja, a personagem parece-me tão desagradável como sempre achei. Mas alterou-se qualquer coisa na minha percepção, não tanto da importância, mas sobretudo do valor representativo de Bush como símbolo do mundo actual. De certa forma, Bush é realmente o símbolo do político destes tempos que atravessamos: da falta de valores, do conservadorismo extremo, da total rendição ao consumismo capitalista e global, da sobrevalorização de valores ligados ao sucesso e à vitória. E o que é interessante é que esses valores, e as sociedades onde eles florescem, não prevalecem apenas nos Estados Unidos da América; prevalecem muitas vezes mesmo nas sociedades que mais criticam Bush.

Se a minha principal crítica a Bush se prende com o facto de ele ter tornado o mundo de hoje um mundo muito menos seguro do que aquele que encontrou quando se tornou presidente pela primeira vez, e em nome de interesses capitalistas obscuros, a minha crítica mais pessoal tem sobretudo a ver com o facto de Bush ser o líder e o rosto de uma ofensiva moralista e reaccionária, de fundo religioso, que condena e tenta contrariar o processo de reconhecimento dos mesmos direitos cívicos e sociais aos homossexuais, personificado no intenso debate a que se assiste nos EUA sobre o casamento gay. Mas como li num dos artigos da Time, tenho a certeza de que o papel que a história reconhecerá, neste âmbito, a Bush, é o mesmo que atribui a todos aqueles que, nos anos 50 e 60, se opunham, com uma enorme violência, ao reconhecimento dos mesmos direitos cívicos às minorias raciais norte-americanas.

Impossível no dia de hoje não falar no desastre que assolou o sudoeste asiático, com uma ‘death toll’ assustadora e que não pára de aumentar, e que marca este Natal como um dos mais mortíferos dos últimos anos. Mas tenho de confessar que há qualquer coisa de belo, de terrificamente belo, neste enorme poder destruidor do planeta a que, erroneamente, temos o hábito de chamar nosso. É que este tipo de tragédias absolutas e incontroláveis, tem o poder imenso de nos recordar, da forma mais trágica possível, que é exactamente o contrário: não é o planeta que é nosso, nós é que somos dele, nós é que somos dela, da Terra. E quando ela se enfurece, não somos mais fortes que um frágil barquinho de pesca levantado pela fúria desmedida do maremoto.