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Durante estes dias em que estive ausente do innersmile, a notícia mais triste de todas foi a da morte de Natércia Freire. E muito triste foi igualmente ver, no dia seguinte, o Público dedicar-lhe uma notazinha lateral, muito sumária e oficiosa; pode ser que um dia destes o Mil Folhas o redima. Em compensação, o Diário de Notícias publicou um texto muito bonito de Ana Marques Gastão (link) que, para além de homenagear com justiça, celebra e explana a poesia de Natércia Freire.
Já escrevi aqui no innersmile, por mais de uma ocasião, sobre Natércia Freire. Já devo ter contado as circunstâncias (um pouco 'revelatórias', digamos) em que estabeleci contacto com a sua poesia, primeiro de uma forma muito avulsa, através de poemas dispersos, depois através dos livros felizmente disponíveis que estão editados.
Se é verdade que há uma pontinha de júbilo vaidoso em sermos detentores de um segredo raro, dói mais o silêncio e o desconhecimento e a indiferença que os anos (ajudados pela discrição da poeta?) foram pousando ao redor destes poemas. Por detrás do cliché, Portugal é realmente um país de bons poetas, só é pena é haver tão poucas pessoas, tão poucos leitores, tão poucos oficiantes do gosto institucionalizado, que conseguem ler para além do lugar-comum.
Que se lixe, claro. Enquanto houver os poemas de Natércia Freire, enquanto houver a memória dos livros impressos, dos poemas que vão navegando à solta pela net, das pessoas que não param de se deixar encantar por um verso, sempre haverá nas nossas vidas lugar para a beleza de um raio de sol que nos ilumina a face.


LIBERTA EM PEDRA


Livre, liberta em pedra.
Até onde couber
tudo o que é dor maior,
por dentro da harmonia jancente,
aguda, fria, atroz,
de cada dia.

Não importam feições,
curvas de seio e ancas,
pés erectos à luz
e brancas, brancas, brancas,
as mãos.

Importa a liberdade
de não ceder à vida
um segundo sequer.

Ser de pedra por fora
e só por dentro ser.
- Falavas? Não ouvi.
- Beijavas? Não senti.
Morreram? Ah, Morri, morri, morri!
Livre, liberta em pedra,
voltada para a luz
e para o mar azul
e para o mar revolto…
E fugir pela noite,
sem corpo, sem dinheiro,
para ler os meus santos,
e os meus aventureiros,
(para ser dos meus santos,
dos meus aventureiros),
filósofos e nautas,
de tantos nevoeiros.

Entre o peso das salas,
da música concreta,
de espantalhos de deuses,
que fará o Poeta?



Link interessante sobre Natércia Freire