December 14th, 2004

rosas

cardoso vive

Terminei ontem a leitura de 'É Proibido Pôr Algemas Nas Palavras. Uma Biografia de Carlos Cardoso', sobre o jornalista moçambicano que foi assassinado em Novembro de 2000, em frente ao escritório do jornal que dirigia, em Maputo. A vida de Cardoso, para além do exemplo de coragem e dedicação à profissão e ao país que viu nascer, é ainda admirável por se confundir com a história de Moçambique, quase como se fosse um símbolo ou um exemplo dessa história.

Nos dois derradeiros parágrafos do Prefácio, os autores, Paul Fauvet e Marcelo Mosse, dois jornalistas que lidaram de perto e trabalharam com Cardoso, explanam o programa do livro:
«Ao fazer o principal elogio fúnebre, o mais conhecido escritor deste país, Mia Couto, declarou: "Não estamos chorando apenas a morte de um homem. Não foi apenas Carlos Cardoso que morreu. Não mataram somente um jornalista moçambicano... morreu um pedaço do país, uma parte de todos nós."
Quem foi este homem, capaz de inspirar uma tal torrente de pesar? Como é que um jornalista, apenas com 49 anos quando as balas assassinas o silenciaram, veio a simbolizar tudo o que havia de mais generoso, nobre e utópico na revolução moçambicana? Neste livro, daqui em diante, esperamos poder dar algumas respostas»


Mas faz mais este livro. Para além de relatar o tempo e o trabalho de Carlos Cardoso, faz ainda um importante relato da história da República de Moçambique, desde os últimos anos de dominação colonial, que conduziriam à independência do país, passando pela experiência colectivista e internacionalista, pela experiência da guerra e da resistência à pressão do regime sul-africano do apartheid, pela viragem política e económica verificada na mudança da década de oitenta para a de noventa, e até ao momento actual, em que a relativa estabilidade política (apesar dos protestos, o acto eleitoral de há duas semanas decorreu em condições pacíficas e ordeiras) convive com uma economia que se pretendia de mercado, mas que tem sido asfixiada por elevados níveis de corrupção e fraude. Aliás, e tanto quanto foi dado como provado pelo tribunal que condenou os seus assassinos, Cardoso morreu precisamente na trincheira do combate que desenvolvia contra a corrupção.


Cruza-se, diria obrigatoriamente, nesta biografia de Cardoso, a intelectual sul-africana Ruth First, militante comunista, inimiga do apartheid e activista do ANC. Exilada em Londres desde os anos 60, First vai viver para Maputo, em 1977, ensinando na Universidade Eduardo Mondlane. Em Agosto de 1982, First foi assassinada em Maputo, através de uma carta-bomba, cuja autoria se suspeita terem sida as estruturas militares sul-africanas.
Carlos Cardoso escreveu este curto poema (que já apareceu À Sombra dos Palmares) dedicado a Ruth First. E não deixa de ser arrepiante como o poema poderia, vinte anos depois, ter sido escrito dedicado a ele próprio.

Isto dos mortos não falarem
não sei.
É que de certos mortos
costumam nascer embondeiros
de raiva
no capim da hesitação.