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katia guerreiro
rosas
innersmile
Fui ao CAE na Figueira assistir ao concerto da Katia Guerreiro, e devo dizer que fiquei muito bem impressionado, apesar de não conhecer muito bem os discos da fadista.
Começar por dizer que não concordo muito com a colagem do fado a uma ideia de tristeza, de melancolia, uma coisa sombria e amargurada. Para mim, o fado, sobretudo ouvido cantado assim ao vivo, é uma coisa muito jubilatória, uma celebração, que a maior parte das vezes é alegre e positiva, de um sentir cultural que nos reforça e adiciona. E foi isso que aconteceu esta noite, mesmo nos momentos mais comoventes e comovidos. Para esse clima de festa contribuiu muito o acompanhamento musical em palco, que acrescentou o contrabaixo às tradicionais guitarra e viola. O contrabaixo dá um certo corpo à música, mas o guitarra, na minha opinião, foi a estrela da noite: muito discreto, sempre a cumprir a função primordial de acompanhamento, mas a aproveitar todas as oportunidades para abrir asas e mostrar esse céu vibrátil que é a guitarra tangente. Esta guitarra muito certeira (Paulo Valentim), uma viola exuberante (João Veiga) e o contrabaixo aconchegante (Rodrigo Serrão) a servir de pano de fundo à voz segura e limpa da Katia Guerreiro, com uma dicção muito boa. Katia canta com sentimento, e, regra geral, com sobriedade, exceptuando duas ou três ocasiões de puro exibicionismo vocal, a mostrar os agudos e as suspensões.
Para mim, o ponto menos positivo do espectáculo foi a invocação a meu ver excessiva de Amália Rodrigues. Não tiro nem uma grama à importância fundamental que Amália teve no fado e na música e na cultura portuguesa em geral. Mas é um verdadeiro fantasma da ópera, um fantasma pesadíssimo, que se faz notar não tanto na escolha dos fados (há temas incontornáveis, e que sabe muito bem ouvir), mas na cega obediência ao estilo, à presença, à atitude, como se fosse possível alguém pretender ser herdeiro do espírito do fado. Katia Guerreiro, como outras fadistas, tem qualidades para se afirmar de modo autónomo, sem precisar de invocar o grande dogma amaliano. Isto mesmo que não queiramos ser cínicos e insinuar que se trata de mera manobra de sedução de plateias com um truque que resulta (quase) sempre. Amália foi o fado, mas o fado não foi, e não é, apenas Amália, e vai sendo tempo de as cantoras de fado aprenderem a afirmar-se pelo seu valor, fora dessa sombra tutelar, e que na maior parte dos casos resulta castradora, da Amália.
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humanos
rosas
innersmile
Ando encantado com o disco dos Humanos, com as canções do baú de António Variações.
Primeiro porque acho que está muito fiel à música do António Variações, ao espírito das suas canções. O António Variações está sempre presente em todas as faixas, aquelas são sempre as suas músicas, na letra e na música naturalmente, no estilo, mas também nos arranjos vocais e instrumentais.
Mas dizer isto não significa que este é um disco ‘à’ António Variações, uma das razões porque ele me encanta tanto é que é um disco daquelas pessoas que o fazem, é um trabalho com uma identidade muito própria, sem dúvida o maior mérito dos produtores Hélder Gonçalves e Nuno Rafael. É, além disso, um disco muito actual, que evidencia as qualidades das canções e a sua modernidade.
Outra qualidade do disco é que sendo um trabalho de colaborações, tem uma coerência muito grande, do princípio ao fim, não é uma manta de retalhos, muito menos uma parada de estrelas. Os arranjos são coerentes, as participações vocais também. Está um trabalho com uma unidade muito forte e com uma marca distintiva muito acentuada. É um disco dos humanos, que são um grupo de músicos a trabalharem de forma séria e dedicada sobre um grupo de canções de um determinado autor.
Encantam-me, e muito, a Manuela Azevedo, que cola a sua voz ondeante ao gingar ondulante das canções do António Variações, como se não tivesse nascido para cantar outra coisa que não estas canções, e o Camané, que num registo tão distante do fado, seu habitual, consegue ser ele próprio, e ao mesmo tempo parece ser assim uma espécie de alter-vox exacta e perfeita (tanto que comove) do António Variações.
Está, na minha opinião, um trabalho muito feliz, sem dúvida um dos discos do ano, que ajuda a colocar o nome do António Variações na história da música popular portuguesa, como um dos seus nomes mais interessantes e determinantes. Acho que ninguém que não tenha vivido esses inícios dos anos oitenta, quando Portugal vivia na ressaca cinzenta da bebedeira de Abril, e ainda procurava libertar-se dos fantasmas moralistas e beatos do salazarismo cultural e mental, consegue imaginar o que foi o choque de cor e dolência do António Variações a dançar a menear o corpo e a dar às ancas, numa sugestão de dengosidade e convite sedutor. O António Variações foi, tanto quanto me lembro, o primeiro (e dos raros, mesmo nestes vinte anos que passaram desde a sua morte) a pôr o sexo na música. Para além de muitas outras canções antológicas (a começar pelo Estou Além e pela sua versão do Povo Que Lavas no Rio, passando pelos dois discos que editou em vida), estou convencido que a Canção de Engate é um clássico da música popular portuguesa, daquelas canções que vai ser ouvida e interpretada durante muitos anos.
Para além de ser muito bom e moderno, este disco dos Humanos mostra porque é que o António Variações era um músico especialíssimo, corajoso e sensual, capaz de escrever sobre coisas que é tão raro ver na música (e se calhar até noutras formas culturais). E que só ele era capaz de escrever, e fê-lo há mais de vinte anos, uma canção como esta A Culpa É Da Vontade:

A culpa não, não é do sol
Se o meu corpo se queimar
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te abraçar

A culpa não, não é da praia
Se o meu corpo se ferir
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te sentir

A culpa é da vontade
Que vive dentro de mim
E só morre com a idade
Com a idade do meu fim
A culpa é da vontade

A culpa não, não é do mar
Se o meu olhar se perder
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te ver

A culpa não, não é do vento
Se a minha voz se calar
A culpa é do lamento
Que sufoca o meu cantar

A culpa é da vontade
Que vive dentro de mim
E só morre com a idade
Com a idade do meu fim
A culpa é da vontade
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