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Diarios de Motocicleta / Diários de Che Guevara
Há filmes assim, que nos apanham completamente, levantam-nos os pés do chão, como uma onda, e transportam-nos por cima das águas, inteiros e leves, o coração ligeiramente aflito por não saber como vai acabar aquilo, mas feliz pela felicidade rara do voo. Não sei se é possível indagar as razões de tal arrebatamento. Tenta-se?
Primeiro, porque é um filme profundamente triste. Não de uma tristeza infeliz, magoada, mas triste por sentirmos que o absoluto é efémero, e que mal nos apercebemos de que o estamos a viver, ele já passou, já nos deixou. Já se escapou por entre os dedos. Uma tristeza de sabermos que trazemos dentro de nós tudo o que é preciso, mas nunca estamos dispostos a viver essa utopia. Não estamos dispostos a pagar o preço de nos libertarmos de nós próprios para viver um sonho.
Depois, porque o filme conta o nascimento desse sonho, dessa utopia. Ou melhor, mostra. Mostra a sua geografia. Mostra as linhas com que se cose, os paus de que é feita a sua canoa.
Depois porque é um filme sobre a amizade, a amizade entre dois homens jovens, que decidem que a vida pode esperar porque não há um minuto a perder se queremos vivê-la a sério e a fundo.
Depois, porque é a paisagem de um continente, olhar para a América do Sul e tentar perceber o que é isso, de que é feito esse branco, o verde do vale, a poeira do deserto, e se há um povo que tenha a medida de um continente, que seja a sua benção e o seu milagre, mas também a sua dor e a sua doença.
Depois porque Walter Salles é brasileiro, e é comovente assistir como essa cultura, que também é um pouco nossa porque fala a nossa língua, se agiganta, com uma segurança de passos dados e uma coesão muito forte. Uma filme maduro, na forma como no conteúdo, na fotografia como na narrativa, nos desempenhos dos actores como na ternura com que se filmam todos aqueles com quem o filme se vai cruzando.
Depois porque é um filme de estrada, uma história de viagem, uma motocicleta Norton, chamada ‘a poderosa’, e nesse aspecto o filme também é muito coerente, porque é fiel à viagem, ‘viajamos pela viagem’, diz-se a certa altura, e o filme é feito desse caminhar, desse rolar, das etapas, dos episódios, da estrada que vai sendo contada em quilómetros e em folhas de calendário.
Mas a verdade é que mesmo assim continuo a não perceber completamente porque é que gostei tanto do filme. Porque ele me fez lembrar, na sua tristeza pungente, uma canção do José Mário Branco, que não vou nomear para, daqui a muito tempo, ainda saber qual é sem precisar de a saber. Talvez porque a mensagem mais definitiva do filme seja esta: todos temos uma motocicleta, e um amigo disposto a partilhar connosco a viagem, e um continente para descobrir (e para nos descobrir nele), e uma utopia à nossa espera. E é sempre um milagre quando alguém, quando um raro alguém, monta nessa motocicleta e parte à descoberta do seu inolvidável e verdadeiro futuro.
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