December 9th, 2004

rosas

mfm vs bss

Na edição de Sábado passado, o Mil Folhas publicou um artigo de Maria Filomena Mónica dedicado ao seu ‘querido inimigo’ Boaventura de Sousa Santos e que já deu bastante polémica aí pela blogosfera fora. Começo por dizer que não sou especialista, nem sequer grande curioso, na área das ciências sociais em que ambos se movimentam, e que em relação quer a um quer a outro não me nutre mais do que o interesse meio distraído que sempre dedicamos a quem é figura pública, sobretudo na área da cultura. Mas nesta coisa das simpatias epidérmicas, tenho de confessar que até simpatizo com a MFM, de quem já li alguns livros, além das crónicas de jornal, e que antipatizo com BSS, talvez porque me irrite aquela pseudo-bonomia arrogante daquilo que antigamente se chamava o ‘intelectual de esquerda’. Mas com este artigo é uma daquelas situações sempre um pouco complicadas em que a severidade do nosso julgamento vai inteirinha para o objecto da nossa simpatia: o artigo não passa de uma atoarda, daquelas coisas que até deixa um gosto mau na boca de tão azedo e amargo.
Começa logo por ser discutível a publicação do artigo no Mil Folhas, suponho que só tenha acontecido por determinação editorial superior. Sim, porque o artigo não tem nada vezes nada a ver com literatura, apesar de o pretexto ser MFM a pronunciar-se sobre um livro de poemas que BSS editou... há vinte anos. Talvez o artigo tenha mais a ver com os outros temas editoriais do Mil Folhas, as artes plásticas e a música dita séria... Mas também não: é pouco estético e nada sério! Mas é pena que o Mil Folhas, o melhor suplemento literário que se publica em Portugal, seja manchado por uma coisa que não tem nada a ver nem com os conteúdos, nem com a forma, nem com o prazer, habituais.
Na primeira parte do artigo, MFM dedica-se a gozar, com menos humor que insolência, com os, a avaliar pelas amostras, péssimos poemas de BSS. Mas é na segunda parte do texto que, penso eu, MFM se desmascara, e deixa à vista que aquilo que verdadeiramente a move neste artigo não passa de uma enorme animosidade (dizer que se trata de má vontade parece absurdamente curto). MFM tenta fazer uma recensão a um livro que BSS publicou em co-autoria e que analisa, tanto quanto eu consegui perceber por entre tanta acidez, as formas de justiça popular, de outras justiças, ou de justiças alternativas, que se praticam fora dos tribunais, nas zonas rurais de Moçambique. Até admito, porque não li o livro e o tema é propício, que MFM tenha razão quando diz que o livro fará a apologia destas justiças de ‘bom selvagem’ face à justiça branca, de matriz ocidental. Mas se for assim, a verdade é que os trechos que MFM cita não são o melhor exemplo. MFM faz esta citação: «Apesar de o paradigma normativo do Estado moderno pressupor que em cada Estado só há um direito e que a unidade do Estado pressupõe a unidade do direito, a verdade é que, sociologicamente, circulam na sociedade vários sistemas jurídicos e o sistema estatal nem sempre é, sequer, o mais importante na gestão normativa do quotidiano da grande maioria dos cidadãos». MFM infere desta frase que BSS legitima as práticas alternativas de justiça, segundo uma corrente que defende que « a justiça dos brancos está manchada pelo pecado original do imperialismo; a dos nativos, porque mais genuína, é evidentemente melhor». Ora, não me parece que tal inferência se possa fazer a partir de tal afirmação. Com efeito, aquilo que é dito tanto serve para a justiça que é feita à sombra do cajueiro como serve para as formas de justiça pelas próprias mãos levadas a cabo pelas milícias populares em muitas cidades e vilas portuguesas e que estiveram na moda há muitos poucos anos. Se tudo o que MFM tem para apresentar em favor da sua argumentação é isto, parece-me muito pobre, e um evidente sinal de que o que a move neste artigo é tudo menos seriedade científica.
O último parágrafo do artigo é notável: MFM alerta para o facto de lá por ela ter criticado BSS em situações anteriores, não se pense que a move qualquer obsessão, «causada sabe-se lá por que rasteiros motivos». E justifica-se dizendo que escolheu o alvo porque, na guerra, não devemos visar os soldados quando temos à mão os generais. E termina com esta frase: «Na luta, há que apontar à cabeça». Curiosamente, o que me veio à ideia foi a imagem do general sul-vietnamita a executar com um tiro na cabeça o guerrilheiro vietcong! Por vezes, é difícil distinguir, por entre a bruma e o troar dos morteiros, quem são os cóbois e quem são os índios.