December 8th, 2004

rosas

talvez lisboa me deixe

aqui escrevi sobre o blog Canções do Tiago, do escritor e poeta e dramaturgo e produtor (e pintor de casas) Tiago Torres da Silva. E já nessa altura escrevi que adoro as suas letras para fados, sobretudo as que escreve para os chamados fados tradicionais. Escrever para fados é mais complexo do que possa parecer à primeira vista, não é fácil encontrar esse equilíbrio perfeito e adequado (e cantável, sobretudo cantável) entre a simplicidade que o fado reclama e a profundidade que o sentimento exige. Para além disso, as palavras têm de ter uma música muito especial, um ritmo, uma melodia, de forma a 'cairem' direitinhas na cadência um pouco preguiçosa do fado. Tudo isto, claro, mantendo, ou tentando manter, um certo nível, uma certa qualidade literária. Em suma, as letras dos fados não podem cair na lamechice de pacotilha, no chamado 'choradinho', mas a verdade é que pela própria essência musical do fado e pela universalidade emocional da sua mensagem, também não se podem afastar demasiado do dito ´choradinho', tem de ficar tudo ali naquele território em que as ondas já não são mar, mas também ainda não são praia.
Estou a divagar, claro. Mas por falar em ondas, era precisamente às vagas que eu queria chegar. Um poema lindíssimo para um fado tradicional, que o Tiago Torres da Silva pôs recentemente no blog, que tem esse tom exacto de simplicidade e profundidade, onde as palavras têm camadas, e tanto podem ser lidas pelo seu valor literal como abrem a porta a todas as nossas metáforas.
Obrigo-vos a ir lá ao blog do Tiago, à entrada onde ele transcreve a letra da 'Última Varina'. Mas só para abrir o apetite, aí fica uma das mais admiráveis quadras do poema:

E vou onde o Tejo é vaga
Ele corre como um louco,
Rio que em si próprio naufraga
Pra ser mar dali a pouco.