November 28th, 2004

rosas

a costa dos murmúrios

Tinha visto da Margarida Cardoso dois óptimos documentários, Natal 71 e Kuxa Kanema, ambos com temáticas de referencial moçambicano. Tinha a maior curiosidade em ver A Costa dos Murmúrios, o filme que realizou com base no romance homónimo de Lídia Jorge, e que me pareceu, desde logo, obedecer a uma dupla intenção da realizadora: manter a temática dentro de um certo território memorialistico da antiga colónia, e tentar o voo mais largo do cinema de ficção.
Há uma evidente qualidade neste cinema de ficção de MC, e que é a capacidade de, com grande eficácia e desenvoltura, conseguir criar determinados ambientes, criar universos de cinefília, o que é tanto mais notável neste caso em que não há uma iconografia estabelecida. E MC consegue-o logo a partir do genérico inicial, em que as imagens de cinema doméstico documentam a chegada a Moçambique de um avião, acompanhadas por um dos hinos da canção ligeira da década de 60, o Sol de Inverno, cantada pela Simone. Essa capacidade de criar um determinado ambiente é, na minha opinião, o maior trunfo do filme, muito ajudado por uma fotografia muito bonita. Mas se essa capacidade de criar um pano de fundo feito de um certo afastamento, em que a paisagem é sempre algo que se vê de longe (de cima), em que não há verdadeira adesão emocional, é totalmente conseguida, já me parece que o filme falha em criar o clima dramático necessário, essencial, para uma história que, sendo de amor, pretende ser também de denúncia. Ora, nada mata mais eficazmente um filme do que não conseguir suscitar o interesse pelo destino da história e dos seus personagens, e temo que seja isso que acontece com A Costa dos Murmúrios: nunca nos importamos realmente com o que está ou vai acontecer àquelas pessoas, n-ao conseguimos partilhar da tensão que supostamente atravessa a personagem de Evita, apesar dos esforços da actriz Beatriz Batarda em fazer do seu rosto o ecrã branco de um poderoso tumulto interior.
rosas

posto em geolhos

A Assírio & Alvim editou recentemente mais um audiolivro (cd de poesia dita acompanhado de livro com os poemas respectivos) na colecção Sons, com Germana Tangêr a dizer poemas de Pessoa, Almada e Sá-Carneiro.
Hoje apanhei na SicNotícias uma entrevista com a Germana Tangêr no óptimo programa que a Bárbara Guimarães dedica aos livros. Germana, que tem 84 anos (depois de uma certa altura, dizer a idade de uma senhora já não é fraca educação; é antes um troféu), disse um poema de Campos, o Lisbon Revisited (1923), 'quase de cor', só a seguir o texto como cábula. Depois a BG pediu-lhe um poema de Camões. Germana hesitou em dizer um soneto, e depois optou por uma redondilha, que disse sem olhar para papel nenhum, apenas seguindo os gestos das mãos. Foi o momento televisivo do ano, seguramente.

Se Helena apartar
Do campo seus olhos,
Nascerão abrolhos

A verdura amena,
Gados, que pasceis,
Sabei que a deveis
Aos olhos de Helena.
Os ventos serena,
Faz flores de abrolhos
O ar de seus olhos.

Faz serras floridas,
Faz claras as fontes:
Se isto faz aos montes,
Que fará nas vidas?
Trá-las suspendidas,
Como ervas em molhos,
Na luz de seus olhos.

Os corações prende
Com graça inumana;
De cada pestana
Uma alma lhe pende.
Amor se lhe rende
E, posto em geolhos,
Pasma nos seus olhos.


- Luis de Camões