November 26th, 2004

rosas

2 perdidos numa noite suja

O próprio dispositivo cénico anuncia: um quadrado ligeiramente elevado, a sugestão do tapete de lona branca, quatro projectores nos ângulos, dois objectos, uma mala e um caixote de fruta, a marcar os cantos opostos. Quando entramos no teatro, e tal como vai acontecer em todas as mudanças de cena, os dois actores preparam-se, cada um num lado oposto do rectângulo, com movimentos bruscos e bem marcados, como no intervalo entre os diversos assaltos. Não há que enganar: estamos perante um ringue, e aquilo que se vai passar em cima dele é uma luta a dois, da qual só poderá sair um vencedor. Da qual só um poderá sair vivo.
É o novo espectáculo d’A Escola da Noite, 2 Perdidos Numa Noite Suja, um texto do brasileiro Plínio Marcos, que não disfarça a enorme carga ideológica própria do teatro interventivo dos anos 60. Mas o que a peça se prepara para revelar, e que a encenação da Sílvia Brito para este espectáculo tão bem põe em evidência, é que mesmo quando estão juntos do mesmo lado, errado, da barricada, cada um dos dois homens está sozinho. Sozinho, contra o outro e, nessa medida, contra ele próprio. No fundo da escala social (mas será também ao longo de toda ela?) não há consciência de classe, não há solidariedade na luta. Cada homem é sempre um lugar de solidão, de desespero e desumanidade. Mas será esse desamparo o resultado da exclusão ou é antes uma amaldiçoada condição humana?
Para além da cenografia e do texto, muito deste espectáculo, muita da sua força e da sua eficácia, repousa nos dois actores, Ricardo Correia e Carlos Marques, que conseguem emprestar à peça uma fisicalidade, um corpo (o corpo, dois corpos), que está sempre à beira de transpor aquele extremo em que o teatro toca a fragilidade da vida, da vida real, da vida que respira.
rosas

brand new day

Ultimamente, o rádio do meu carro vai-se sintonizando na Antena 2, que agora, além da grande música, vai passando ainda o grande jazz. O que significa que duas vezes por dia, durante quinze ou vinte minutos, ao redor das nove de manhã, chegado às sete, à tarde, me distraio e acalmo do stress do trânsito (não é figura de estilo, o trânsito provoca-me mesmo muito stress) com os adagios, os alegros e outros andamentos.
Desde que foi inaugurada este ano a nova ponte sobre o Mondego, a montante da cidade, tenho um percurso alternativo para o trabalho. Apesar de ser mais longo do que vindo pela Portagem, tem menos tráfego e, além disso, parte do percurso é feito pelo campo, o que é sempre muito relaxante. Tem ainda outra vantagem: no caminho, passa-se junto a uma capelinha do Senhor dos Aflitos. Aproveito sempre a oportunidade para falar, em voz alta, com o Senhor, discuto algumas questões pertinentes e, confesso, meto-lhe uma cunhas.
Hoje de manhã, saí de casa e vinha ao telefone. Quando desliguei e aumentei o volume do rádio, reconheci o Concerto de Colónia, do Keith Jarret. No momento em que o carro atacava o viaduto de acesso ao tabuleiro da ponte, quase sem trânsito naquele momento, uma passagem particularmente envolvente e animada do piano de Jarret, o sol obliquo, quase horizontal, crescendo lá dos lados da serra de Penacova para espalhar uma luz clara e acesa e derramada sobre a ponte e a encosta fronteira. Uma verdadeira epifania matinal, a marcar indelevelmente o dia.
Reconhecido que sou, naturalmente que, minutos depois, quando passei junto à capelinha do Senhor dos Aflitos, não me esqueci de agradecer a graça recebida.