November 24th, 2004

rosas

o dr. valdez

Um dia destes aconteceu-me uma coisa espectacular. Estava eu a ler um livro de ficção, passado numa época em que era ainda criança, e de repente, atravessa-se na página uma personagem que eu conheci. Quer dizer, conheci uma pessoa com aquele nome e com aquela profissão, e num espaço geográfico que era sensivelmente o mesmo em que se desenrola o romance. Acho que foi a primeira vez que me aconteceu. Eu estar a ler um livro e de repente cruzar-me com alguém que conheci da vida real. Claro que o facto de a pessoa vir dessa entidade mítica e difusa que é a minha infância (serão todas assim?) só contribuiu para aumentar a aura de maravilhamento. É uma passagem fugaz, entra e sai da história num único capítulo, mais de figurante do que propriamente de personagem. Mas é uma sensação engraçada: parece que somos nós próprios que entramos na história, que há um elo entre nós e aquelas personagens à volta das quais se tece este romance.

O livro é As Visitas do Dr. Valdez, do escritor moçambicano João Paulo Borges Coelho, e relata, através de flashbacks que se vão entrelaçando com o tempo presente do romance, a vida, desde a infância, de duas irmãs que são obrigadas a sair da casa onde sempre nasceram, no norte da antiga colónia, para fugir à guerra nacionalista. Nessa deslocação para a segurança a prazo de uma cidade do Sul, são acompanhadas pelo filho de um empregado, um moleque, como se chama em moçambicano ao criado negro ainda mufana, ainda rapaz, e grande parte da acção presente do livro é ocupada com a relação do rapaz com as duas patroas.
Com o fim do império colonial, e a independência das antigas colónias, houve muitas vidas, milhares, milhões, que se modificaram, que se alteraram, que se transformaram noutra coisa. Muitas vidas, e também muitas realidades, muitas situações. O que é admirável neste livro de JPBC é que o autor escolhe escrever não sobre essas, mas sobre as coisas, as vidas, as realidades, que pura e simplesmente acabaram. Que não resistiram às transformações. Que morreram com a morte do império. Umas morreram em sentido literal, como a Sá Amélia. Outras morreram na vida que sempre foi a delas, e preparam-se para renascer noutra vida, com uma mala na mão, como a Sá Caetana. O livro relata, sem tomar uma posição moral (apesar de ser um livro cheio dela), contra ou a favor, a história dessas realidades, e da forma apesar de tudo tranquila como acabaram. Há uma imagem magistral, de mato virgem e intransponível que vai invadindo e ocupando, de forma inexorável, um imenso coqueiral à beira-mar.
Emocionei-me muito no fim do livro. Porque recentemente pude visitar a arqueologia dessa realidade que acabou, e senti, sem conseguir exactamente expressá-lo, esse sentimento que o livro descreve tão bem. Mas emocionado sobretudo com o desenlace final da história, com a forma como as personagens, as duas restantes, se preparam para abandonar o livro. E só pode ser muito bom, um livro que nos faz acreditar tanto nas fantásticas pessoas que ele nos inventa.