?

Log in

No account? Create an account

s. martinho atrasado
rosas
innersmile
não tem quadras s. martinho
só água-pé e castanhas
dou-te esta em troca do vinho
e vê lá se te amanhas

et puis je fume
rosas
innersmile
Eu não fumo e, para falar com franqueza, não faço questão nenhuma de que estejam a fumar ao pé de mim. E até admito que por vezes sou um bocado exagerado, e dá-me um certo gozo chagar o pessoal que fuma. Mas, caramba, o bom senso ainda vale alguma coisa, apesar de ser um valor em baixa declarada.
No Sábado à noite, estava eu a rematar o filme do Wim Wenders num bar, e bateu-me o inexorável absurdo que é proibir o consumo de tabaco nos bares. Nos restaurantes, ainda vá que não vá, se bem que acho a solução de espaços separados para fumadores e não–fumadores preferível. Soa um bocado a apartheid sanitário, mas sempre é uma forma de compatibilizar as coisas. Agora proibir o tabaco nos bares é uma coisa totalmente estapafúrdia. Eu sei que o fumo dos cigarros faz parte da natureza conceptual da palavra ‘bar’. Eu não sou fumador, e quando vou a um bar sei que aquilo está cheio de fumo de cigarros; das duas uma: ou não vou, se realmente não estou para aguentar a fumarada, ou sujeito-me. Aliás, durante muito tempo eu não ia a bares, porque não fazia as duas coisas que se fazem nos bares, que é beber e fumar. Agora, desde que descobri que há bares com rapazes engraçados, voltei a encontrar uma boa razão para os frequentar (isto para já não falar no baccardi breezer, para não abichanar mais a entrada).
E nem sequer se argumente com o direito do não-fumador de frequentar bares. Primeiro, não é direito nenhum, eu não tenho direito a frequentar bares, mas já tenho direito a que os órgãos legislativos em que eu votei não produzam legislação absurda. O cidadão não tem um direito a ir aos bares. Vai se gosta e se quer. Eles estão aí, é uma questão de opção. E depois, como estar cheio de fumo faz parte da natureza dos bares, é um contra-senso tão grande querer um bar sem fumo, como, sei lá, querer um TGV que pare em todos os apeadeiros, ou ir a uma discoteca onde passe música baixinho, ou gostar de rock progressivo com faixas de três minutos. Um oximoro, em suma.
Eu já tinha ficado chocado quando uma lei parecida com esta que querem implementar cá passou na Irlanda. É preciso não conhecer os bares da Irlanda para não ver como isso é um disparate completo. Caramba, até devia ser obrigatório toda a gente dar a sua passinha num bar irlandês, de tal forma o fumo do tabaco, a cerveja guiness e a música ao vivo ao estilo jam session fazem parte da paisagem cultural do país.
Agora outra coisa: contaram-me, eu não vi, por isso não juro, que o Miguel Sousa Tavares numa das suas recentes crónicas televisivas, afirmou não fazer intenção de cumprir a lei. Acho mal ele tê-lo dito, ainda que faça realmente tenções de quebrar a lei. E não é hipocrisia e tal, é mesmo uma questão de responsabilidade. Quando o MST afirma que não vai cumprir a lei, está a legitimar toda essa gente que em Portugal acha que as leis não se fizeram para elas próprias, só para os outros. Sejam as leis fiscais, seja, por exemplo, o código da estrada. E logo ele, que se arma em paladino de causas várias e passa o tempo a denunciar o regabofe nacional. Não pode ser, meu amigo. Se uma lei é injusta, combate-se (credo, tenho uma vaga e desagradável sensação de ter ouvido o Portas a dizer qualquer coisa parecido com isto este fim de semana, a propósito da possível suspensão da lei que incrimina o aborto; deus me perdoe...) Impede-se que ela seja aprovada, ou luta-se para que seja revogada. Não se faz de conta. Percebo a intenção com que ele o disse, mas mesmo assim acho irresponsável. Não é com cortes de estrada que o país ganha maturidade cívica e política.