November 20th, 2004

rosas

azuis como safiras

«Aqueles dois jovens indolentes na capa do Kavafis davam uma impressão errada. Só agora é que me apercebo disso. Em primeiro lugar, vim a saber que é uma litografia de David Hockney. São o casal de homossexuais de Maida Vale. A Alexandria de Kavafis – a que ele evoca na sua velhice: a cidade maltrapilha e sensual do virar do século, de furtivos olhares indolentes e vozes estranguladas de prazer – não é sequer um fantasma no salão pequeno-burguês e inclassificável onde se inscreve o par de Hockney. Tudo o que os preocupa é saber quem é que poderá ser divertido convidar para ir jantar lá a casa depois do ballet, no sábado à noite. Nunca afrontaram o destino, como Kavafis fez. Em segundo lugar, esta Alexandria de caras corruptas e pálidas vislumbradas em ruas escuras e corpos delicados e nus, dando-se sem limites ao deboche, não é exactamente o que a sua poesia tem de mais cativante, não neste fim de século. Tenho a certeza de que os dois jovens da gravura de Hockney achariam as recordações dolorosas de Kavafis inconsequentes, tristes e embaraçosas – poemas acerca de belos jovens com cabelo preto e perfumado que desaparecem nas sombras das arcadas, quase despercebidos (décadas antes) na sua beleza de deuses, quando passam em frente das montras iluminadas... Nos nossos dias, quem é que anseia por este género de coisas?
Ainda assim, o acto de recordar é absorvente – foi disso que senti mais falta no outro dia, quando fechei o livro naquele poema sobre uma tarde de Agosto («seria Agosto?») e olhos azuis («Acho que sim... Ah sim, azul: um azul de safira») . O que é interessante não é o mês, ou a cor dos olhos – talvez nem o próprio poema seja interessante (não passa de um azulejo no mosaico): o que é interessante é observar a delicada criação do mosaico, tão envolvente – e não tanto esses dedos vagueando por este peito esculpido, não tanto esses olhos cinzentos ou esta cama amarrotada, mas antes o ganhar forma, esse movimento para que alguns géneros de poesia (e alguns grandes quadros – paradoxalmente, num instante) podem encarnar.»


- Robert Dessaix, Corfu (gótica)


TÃO LONGE

Desta memória eu quereria dizer...
Tão apagada agora... quase nada resta –
porque ficou tão longe, nos meus anos primeiros de ser homem.

Uma pele como de jasmim... Na noite
de Agosto... Era de Agosto?... Mal relembro
os seus olhos... Eram, suponho, azuis...
Ah sim, azuis. Azuis como safiras.


- Konstantino Kavafys
(tradução de Jorge de Sena)