November 15th, 2004

rosas

life is a miracle

Tenho de confessar que o Kusturica é uma pedra no sapato (enfim, uma das) da minha cinefilia. Lembro-me vagamente de ter visto um filme dele, há muitos anos, talvez ‘O Tempo dos Ciganos’, e depois disso mais nada. Nem cheguei a tentar ver o ‘Underground’. Passei o ‘Black Cat’ no cinema, comprei o dvd, mas nunca consegui passar dos vinte minutos iniciais. Decidi reincidir com o Life is a Miracle, mas receio que os resultados não tenham sido os mais brilhantes.
Há com efeito qualquer coisa que me desagrada no cinema de EK, ou melhor, qualquer coisa que me corta o gozo, que não me deixa divertir nem emocionar com os seus filmes. Eu bem tento analisar (-me) para tentar descobrir exactamente o que é que me provoca uma certa repulsa, mas não é fácil. Talvez seja melhor começar por dizer que o que mais gosto nos seus filmes é da música, que é a única coisa que verdadeiramente me seduz, e me põe a dançar por dentro. Gosto de certos planos que ele faz, em que as figuras (o burro, por exemplo) ocupam a totalidade do campo, e como que se recortam do resto da paisagem.
Quanto ao humor. Houve duas ou três situações a que achei francamente piada, mas na maior parte dos casos acho o humor muito grosseiro, não no sentido da ordinarice ou da brejeirice, mas no sentido em que é completamente falho de subtileza. Incomoda-me aquele acumular de sinais, de pistas, de situações, de anedotas, de episódios, de personagens, que saturam a narrativa sem, a meu ver, ou tanto quanto consigo perceber, qualquer ganho em termos de eficácia do filme. Sinto-me um pouco como se tivesse de andar de catana em punho no meio daquela selva de factos e informações, para tentar descortinar algum sentido, para tentar perceber onde é que se quer chegar.
Eu acho que percebo uma certa intenção de desvendar um modo de vida cruel, mas atrapalha-me perceber que isso é mostrado, e misturado, com um certo gozo, mesmo com um certo prazer alarve. Há digamos uma certa estética da decadência, mas que me parece ser transmitida quase como uma coisa fashion, como aquela moda aqui há uns anitos na publicidade, dos fashion junkies. E acho que é isso que me confunde, eu não perceber se o EK denuncia ou celebra aquela tontice muito histriónica e cruel, aquele excesso que reside num certo fundo de malvadez. Poder-se-ia dizer, no entanto, que EK não pretende denunciar nem celebrar, que se limita a mostrar uma determinada realidade ou situação. Mas, lá está!, não aceito o argumento, porque se há coisa que me parece é que o cinema do K é extremamente moral, ou seja, é aquilo que aqui há uns anos se chamava cinema de tese, um cinema que tem uma determinada visão da vida e a pretende transmitir.
Naturalmente, os filmes de K podem sempre ser lidos como parábolas muito excessivas da situação nos Balcãs. Mas nesse caso há um tal acumular de simbologia que a partir de certa altura o filme perde legibilidade, torna-se uma massa confusa (eu ia escrever disforme) de pistas e linhas e sinais.
Mas o que mais me desgosta nos filmes é mesmo uma certa ‘glamourização’ da total rotura e desregração que se vive ou viveu nos Balcãs. Quer dizer, não digo que seja essa a intenção do autor, mas a verdade é que faz filmes de que resulta uma imagem mais ou menos sedutora dos bandidos e traficantes que pululam a narrativa.
Um exemplo: há uma imagem fantástica de um grupo de bandidos que atravessa a estação de comboios pendurados na locomotiva a snifar um pó branco que dois capangas andam à frente a espalhar nos trilhos. Quer dizer, é uma imagem poderosíssima, de um excesso brutal, que transforma em meninos de coro os nossos ‘heróis’ do sexo, drogas e rock’n’roll. Mas precisamente, what’s the point? O que é que se pretende provar com essa cena? Ou, mais simples ainda: que se pretende mostrar?