November 14th, 2004

rosas

my phone only vibrates for you

Concerto do Rufus Wainright, ontem à noite, na Aula Magna. Tinha muitas expectativas. O Rufus foi daquelas minhas descobertas pessoais, meio secretas. Comprei o disco Poses só porque li algures que o tipo era gay. E apaixonei-me. Mais pelas canções do que por ele, note-se. Ou se calhar mais pela voz dele do que pelas canções. Ele canta sempre com o tom de quem põe a secar ao sol fora da janela, os lençóis manchados do amor da véspera. Um misto do alegria e dor, de mágoa e orgulho, de tristeza e felicidade. Podemos nem saber muito bem sobre que é que ele está a cantar, mas sabemos sempre que ele usa aquele tom de voz de quem está a esfregar um coração partido na tromba de um amante castigador. Toma lá, canalha, limpa-te aí ao trapo que ajudaste a sujar.
O concerto revelou coisas que de certa forma já estavam inscritas nas canções, nomeadamente um sentido de humor que é feito muito de uma certa pose: ao mesmo tempo que ele é simpático, aquelas bocas que vai mandando ao longo do espectáculo ajudam a colocar o público no seu lugar, assim tipo, eu gosto muito de vocês, somos todos muito queridas, mas o meu lugar é aqui e o vosso é aí. Não sei se isto me está a sair tão bem como eu queria, espero não estar a passar a imagem de que o tipo é arrogante, porque é exactamente o contrário, ele é afável, entrega-se, mas sabe guardar aquela distância necessária para fazer uma estrela, vai mandando uma bocas que ao mesmo tempo que desconstroem o seu lugar de vedeta, de estrela lá em cima do palco, ajudam a consagrar a inacessibilidade desse lugar. Tu podes gostar muito de mim, mas nunca vais poder ir comigo para a cama. Tu até podes ir comigo para a cama, mas nunca vais mandar no meu coração. Whatever.
Gosto muito dos concertos a solo, como foi este. Há mais intimidade, claro, mas sobretudo há mais liberdade, estamos mais próximos daquilo que é o sopro criativo, do que é esse instante em que a liberdade absoluta se começa a transformar em estátua criativa. Além disso é sempre sexy ver um tipo giro a cantar e a tocar piano.

Antes, durante e depois do concerto, foi um dia excepcional, por causa da excelência da companhia. Roam-se aí, simples mortais, mas fui ao concerto com as três princesas mais fantásticas do livejournal, que me fizeram sentir assim o tipo com mais brilho lá na sala do concerto. Nem as nomeio, por causa das invejas. Além disso, no fim do concerto conheci uma outra princesinha que me comoveu. É uma daquelas meninas que a gente olha para a fragilidade aparente do corpo, do rosto, do tom da pele, da voz, dos gestos, do sorriso que nem chega a ser tímido, é um simples esboço, e consegue ler quase à transparência que, ‘por dentro’, é um universo, uma cosmologia, um sistema solar com ventos e tempestades e mares serenos e dias que não começam nem acabam, e tudo maior do que somos capazes de compreender. A não ser quando ela, rara, concede, e escreve numa frase as palavras que a cada momento inauguram o sentido.