November 11th, 2004

rosas

shalom palestina

Não sei muito bem o que é que vai sair daqui. A questão israelo-palestiniana é sempre muito complicada, para mim, sentimentos muito contraditórios, muito antagonismo cabeça-coração. Bom, começar por dizer que não estou triste com a morte do Arafat. Quer dizer, não equivale a dizer que estou contente, é só mesmo dizer que não a sinto como uma perda, como uma perda afectivo-ideológica (muito mau sinal, este texto ainda ir tão curto e já estar cheio de palavras compostas. Mesmo muito mau sinal!). Não simpatizava muito com a personagem, e em alguns momentos mais radicais cheguei mesmo a considerá-lo um terrorista. Por outro lado, tenho uma simpatia muito grande em relação aos judeus e à história de Israel. Suponho que é daquelas coisas que nos ficam da infância, a história da formação do estado de Israel e a figura de Golda Meir, que foi uma das minhas primeira heroínas. Isto, claro, a acrescentar à minha simpatia pelos judeus em consequência da segunda grande guerra. Tudo isto me tornou sempre muito parcial no tocante ao problema do Médio Oriente, ainda que, racionalmente, não posso deixar de sentir solidariedade com o povo da Palestina e de repudiar muitas das acções dos israelitas. Hoje de manhã fui acordado com uma sms que dizia ‘Arafat morreu. viva a Palestina livre’, e não fui capaz de responder, porque se tivesse respondido, teria de ser qualquer coisa do género ‘vai à merda’. Estas questões não são simples, e irrita-me quando as pessoas, sobretudo as que eu considero inteligentes, têm estas respostas muito simplistas.
Por outro lado, o que se tem passado nos últimos dias com o estertor de Arafat também não contribuiu muito para aumentar a minha simpatia pelos palestinianos. Eu percebo, claro que percebo, que a questão é escaldante e as coisas têm de ser feitas com muita cautela de forma a evitar banhos de sangue e uma perda de controlo de consequências muito graves. Mas a luta pelo poder, e pelo dinheiro, que se tem verificado à volta do leito de morte de Arafat, é indigna. Tem o seu quê de shakespeariano, mas no mau sentido. E acho que não dá nenhuma dignidade à causa da Palestina
Seja como for, há uma coisa inegável: todo o Médio Oriente, e de certa forma todo o mundo, está suspenso do que se passa entre Israel e a Palestina. Nestes últimos anos, perdemos todos muito a esperança de que houvesse uma saída, já não digo pacífica, mas uma saída tout court, para o conflito. De certa forma, a morte de Arafat abre uma janela para a possibilidade de uma saída. Não sei como, evidentemente, mas quando mudam os actores há sempre a possibilidade, mesmo que muito teórica, de mudar o texto à peça. Tenho a certeza de que se o resultado das eleições nos Estados Unidos tivesse sido outro, essa esperança poderia ser maior e mais consolidada, mas, de qualquer forma, é um momento decisivo, em que se pode passar alguma coisa.

Já que estou com a mão na massa, só para acrescentar que me comovi com as imagens que por estes dias passaram na tv a propósito dos 15 anos da queda do muro de Berlim. Acho que foi o momento mais emocionante, a este nível claro, não estou a falar no plano pessoal, da minha vida. Porque era, como na canção dos REM, o fim do mundo tal como o tinha conhecido. E porque, por um momento, ou seja, por umas semanas, por uns meses, o fim da separação das Alemanhas criou espaço para a utopia. Um daqueles efémeros momentos, como, por exemplo, em Portugal a seguir ao 25 de Abril, em que povo acreditou a possibilidade de concretizar o sonho. De se concretizar como um sonho.