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the manchurian candidate + before sunset
rosas
innersmile
Ontem foi um dia feliz, daqueles que não queremos que acabem, em que o prazer da companhia dos amigos parece ser o que nos resgata da falta de sentido das horas mais ordinárias. Há muito que viajar sozinho na auto-estrada, de noite, de regresso a casa, não me sabia tão rápido e leve, a cabeça ainda a saborear as conversas, as brincadeiras, os afectos.
Mas o dia de ontem foi uma pausa. Hoje voltámos aos dias pardos, mesmo se o sol brilhou no céu intenso. Bem sei que esta melancolia é sazonal, mas é também por isto que eu não gosto do Outono e do Inverno. Para compensar, decidi que o dia ia ser de cinema. Vi dois filmes muito bons, ou antes, um muito bom e outro genial. Comecemos pelo primeiro.

Jonathan Demme domina com mestria as regras do thriller psicológico, como já ficou demonstrado desde o inesquecível Silence of the Lambs, uma obra-prima em todo o sentido da expressão. Para mim, como já tenho dito, um filme é sobretudo a maneira como a história é contada, a narrativa, a forma como o filme se estrutura para nos oferecer as personagens e o seu destino. E nesse aspecto não há muito mais a dizer acerca da capacidade de Demme de contar a história, a não ser que é perfeita, como fica demonstrado mais uma vez em The Manchurian Candidate. Repare-se, por exemplo, no pormenor de a banda sonora estar sempre cheia do som de vozes, haver sempre o som de vozes mesmo quando é imperceptível o que dizem: por um lado, dá uma enorme coerência e realismo ao facto de as personagens serem perseguidas por sonhos e comandadas por vozes interiores, e por outro ajuda a criar o clima de paranóia que é o pano de fundo em que esta história se vai entretecendo.
Mas tirando esta parte de puro gozo cinéfilo, o que eu achei mais interessante no filme foi a parábola política que se inscreve num filme que gira à volta precisamente dos meandros da política. Foi pena ter errado a visão do filme por uma semana, se o tivesse visto antes das eleições norte-americanas, isso sem dúvida teria sido ainda mais interessante. Porque ainda que Demme, segundo li, tenha tentado minimizar essa dimensão do filme (mercado oblige, claro), a verdade é que ela faz parte do filme, não tanto porque ele pretenda ser uma metáfora ou uma caricatura ou uma crítica, mas porque na própria essência da história que o filme conta, e que por isso é determinante, está uma determinada maneira de fazer política que é, inegavelmente, a que levou Bush à reeleição.
Uma forma de fazer política em que o discurso ganha uma dimensão absoluta, substituindo as ideias, os valores, os princípios, as acções, na essência da actividade política. A verdade já não é aquilo que se procura, aquilo que se busca. A verdade é agora aquilo que se anuncia. O discurso que a Senadora Eleanor faz aos lideres do partido para os convencer da escolha do filho como vice-presidente, é terrível de tão parecido com aquilo que é a essência do discurso político hoje em dia, sobretudo o que levou Bush à vitória nas eleições. Só as palavras contam, só elas têm significado. O programa político é apenas e tão só aquilo que se anuncia como verdade, e é esse discurso, esse enunciado, o único valor que se apresenta, sempre de forma dramatizada, radicalizada, ao eleitorado como factor decisivo. Se eu acredito nessa verdade que o candidato me tenta vender, então só posso votar nele, é a única saída aceitável e adequada. Somos escravos do discurso, na medida em que questioná-lo, tentar perceber para além do muro, ou do ecrã, das palavras, é já uma subversão. Quando nada existe para além, ou por detrás, do discurso, pô-lo em causa é já de si um crime de lesa pátria. É, na verdade, como votar em cheques em branco, porque o discurso deveria estar sempre ao serviço do ideal político, e não o contrário, ou seja, o programa político resumir-se aos seus enunciados.
Bom, mas não se pode falar neste filme sem referir a fabulosa interpretação da Meryl Streep, que é a coisa mais devastadora, mas avassaladora, que se pode imaginar. ‘Uma locomotiva’, como a própria actriz descreve a personagem, e só uma actriz muito extraordinária conseguiria encontrar a subtileza necessária para dar credibilidade a uma personagem assim. Denzel Washington está ao seu (bom) nível de sempre, e foi ainda uma agradável surpresa reencontrar, ainda que em papeis mais secundários, o Jeffrey Wright e o Bruno Ganz.

É muito difícil falar de Before Sunset, sobretudo quando ainda estou muito sob o efeito de maravilhamento do filme.
Eu não vi Before Sunrise, e não consigo fazer ideia se esse facto condiciona, e o modo como eventualmente o fará, a minha maneira de percepcionar este filme de Richard Linklater, que conta, como se sabe, o reencontro das duas personagens que, no filme inicial, viviam uma efémera e inesperada história de amor.
Mas o que não me é negado como espectador é viver este filme como personagem activa dessa matéria incandescente que liga as personagens de Celine e Jesse. O milagre de ver que o segredo da vida (o sentido da vida, diríamos de modo mais pythoniano) acontece na polpa dos nossos dedos. É aí, na mera possibilidade de tocarmos, e sentirmos, o ar que nos rodeia, o ar que existe entre nós e os outros, esse plasma invisível que nos liga à distância do tacto, que reside a única coisa na vida capaz de nos salvar. Que isso seja revelado num filme simples, frágil, quase manual na forma como se constrói, é um dos milagres do cinema.
É curioso porque acabei de falar, a propósito do perigo que é, em política como suponho em tudo na vida, substituirmos a verdade à verdade enunciada pelas palavras, de um filme que denuncia, ainda que em forma de parábola, desse domínio do enunciado sobre o real. E logo a seguir vejo um outro filme em que ainda predominam as palavras, mas agora já não como instrumento de domínio e ocultação, mas como o único veículo que dispomos para tentar transmitir aos outros aquilo que nos vai por dentro, o fulgor que nos irradia por dentro, e como é comovente quando as palavras parecem sempre ser a versão desastrada desse fulgor, dessa irradiação.
Há neste filme de Linklater, e para não dizer mais, pelo menos dois ou três momentos verdadeiramente comoventes, daqueles de lágrimas nos olhos, em que vemos ali no ecrã como a felicidade é real e intangível como uma nota de música, como o som da voz humana. Em que nós, os humanos, cada um de nós parece ser sempre menos do que são os nossos sentimentos, do que é aquilo que nos liga aos outros.
Claro que de um filme assim tão prodigioso só podemos responder, se nos perguntarem sobre que é o filme, que é apenas uma história de amor.
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