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rosas
innersmile
Há qualquer coisa que incomoda numa certa demonização daquilo que não gostamos. Estou a falar de algumas reacções à vitória do Bush nas eleições de anteontem.

Primeiro quero dizer que fiquei triste, preocupado e perplexo, com o resultado das eleições. Triste porque achava, sinceramente, que havia aqui uma oportunidade de retomar uma certa visão não catastrófica, não destrutiva, não agressiva, do mundo e das relações internacionais. Preocupado, porque se o Bush prossegue a sua política externa no modo como fez no primeiro mandato, o mundo vai-se tornar um lugar ainda menos seguro: menos seguro por causa das reais ameaças à nossa vida, e menos seguro porque o clima de psicose e de terrorismo de estado vai aumentar. Perplexo, porque não consigo perceber muito bem as razões que levaram o eleitorado americano a apoiar Bush e os republicanos de forma tão expressiva.

Mas dito isto não consigo alinhar no tom reactivo de que os americanos são burros, e que só isso explica que tenham votado no maior burro deles todos. Ok, eu gosto dos americanos e dos Estados Unidos, admiro o povo e a grande nação. Isso não me impede de ser crítico em relação a muitas coisas que acontecem nos EUA. Não me impede de ser intransigentemente crítico, por exemplo, desta administração, e do seu desígnio guerreiro. Ao ponto de achar que Bush é inimigo da paz.

Por isso o resultado das eleições me causa tanta perplexidade. Não percebo que medo, que fantasma, ensombra o eleitorado americano. Mas daí ao ponto de achar que os americanos são burros vai um grande passo, que eu não consigo dar e não percebo. A verdade é que eu olho para a América com os olhos da Europa. Vejo-a daqui. Não a consigo ver de dentro. Não me posso esquecer que os americanos votaram no seu presidente, e não naquele que eles acham que é o melhor polícia do mundo. Que é um pouco o nosso sentimento europeu: já que os EUA são a polícia do mundo, então queremos um xerife à nossa medida.

Dizer que os americanos são burros porque não fizeram aquilo que nós achamos que seria correcto fazer, é sempre a maneira mais simplista e fácil de resolver a questão. Porque não precisamos de fazer mais perguntas. Porque não precisamos de pensar. Os EUA são uma nação enorme e muito diversa. Aliás, basta olhar para o quadro dos resultados e ver como as manchas das vitórias de cada um dos candidatos se distribuem, para começar a perceber que não faz sentido generalizar dessa maneira, dizendo que os americanos são burros. Não há povos burros. Se houvesse, que poderíamos dizer de um certo país europeu, democrático como os melhores, que aceita um governo mau que não foi eleito!

Estou triste e desiludido com os americanos, que tiveram medo de não ter medo. Que, ao contrário do que aconteceu com os nossos vizinhos espanhóis em Março último, não foram capazes de olhar para a frente e para cima, e preferiram acreditar na linguagem do medo.
De certa forma, viver em democracia é, hoje em dia, escolher o mal menor. Capitular ao interesse que, apesar de tudo, parece menos pernicioso e prejudicial. Não há, como diria o Padre Américo, rapazes maus. Ou são, como o Scorsese, todos bons rapazes. De certa forma, a esperança que eu punha na vitória do Kerry era parecida com a que vivi, há uns bons anos, quando o Tony Blair venceu pela primeira vez aos conservadores, afastando-os do poder. Ora, o Blair veio a ser, como se sabe, o maior e melhor aliado do Bush na Europa. Provavelmente, a única coisa que os americanos desperdiçaram anteontem foi o direito a viver uma ilusão.

Não tenho bem a certeza se o que escrevi a propósito deste assunto faz sentido. Mas escrever ajuda-me a ordenar as ideias. Pode ser que assim isto comece a fazer algum sentido.
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rosas
innersmile
Em Pequenópolis, os prestidigitadores (que em Pequenópolis têm um nome mais curto) usam um palito mágico para fazer os seus pequenos truques.


[para a Regina e para o pai dela]