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(no subject)
rosas
innersmile
É um dos mais admiráveis poemas de Rui Knopfli. Vem publicado no seu derradeiro livro, O Monhé das Cobras (acho mesmo que encerra o livro, mas não o tenho aqui à mão, por isso não posso confirmar), e é uma das mais pungentes despedidas que eu já li.

AEROPORTO

É o fatídico mês de Março, estou
no piso superior a contemplar o vazio.
Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon
e olha-me, obliquamente, nos olhos:
Não voltas mais? Digo-lhe só que não.

Não voltarei, mas ficarei sempre,
algures em pequenos sinais ilegíveis,
a salvo de todas as futurologias indiscretas,
preservado apenas na exclusividade da memória
privada
. Não quero lembrar-me de nada,

só me importa esquecer e esquecer
o impossível de esquecer. Nunca
se esquece, tudo se lembra ocultamente.
Desmantela-se a estátua do Almirante,
peça a peça, o quilómetro cem durando

orgulhoso no cimo da palmeira esquiva.
Desmembrado, o Almirante dorme no museu,
o sono do bronze na morte obscura das estátuas
inúteis. Desmantelado, eu sobreviverei
apenas no precário registo das palavras.



O dia de hoje estava marcado para ser de despedidas. Andei toda a manhã a pensar em fazer uma entrada a falar de dois amigos que se aposentaram, e cuja partida do serviço sinto como uma perda pessoal, e que me faz sentir triste e mais sozinho.
Uma delas, foi das pessoas que mais me ajudaram durante oito anos. Durante todo esse tempo, a única coisa de que verdadeiramente me arrependo, arrependimento cheio de remorso e complexo de culpa, foi a vez em que, por uma porcaria qualquer de serviço que já nem sou capaz de me recordar, a fiz chorar. Sanámos essa história é claro, e de certa forma esse episódio até fortaleceu a nossa amizade. Durante o último ano, ela foi razoavelmente maltratada, ainda mais injustamente do que eu, e foi esse destrato que lhe apressou a vontade de se ir embora da casa onde trabalhou durante trinta e seis anos.
Como descreveu numa carta de despedida que enviou a alguns dos seus colaboradores mais próximos, ela sente-se este momento como quando acabou a leitura de um dos seus livros preferidos: com pena de que a personagem tivesse acabado o seu belo romance.


Entretanto, a dar uma voltinha pelos meus caminhos preferidos da blogosfera, leio o obituário da Janela Indiscreta. Durante mais de um ano, a Janela foi um dos meus blogs de visita útil, obrigatória, indispensável e quase diária. Não é possível referenciar (e agradecer) tudo o que aprendi, todos os mundos que se revelaram, todas as jóias que os amigos da Janela nos iam oferecendo a um ritmo diário surpreendente. Não foram poucas. E todas elas vividas da única forma que é possível viver as coisas da arte e da cultua: com e por paixão. Não por obrigação intelectual, não por interesse, não por fidelização ao canone. Apenas por puro prazer. Apenas pelo fio do gosto e por prazer puro.