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confidencial
rosas
innersmile
A primeira grande diferença desta coreografia de Olga Roriz para as duas anteriores que eu vi (Jump-up-and-kiss-me e Pedro e Inês), é que ‘Confidencial’ parece não ter, como ponto de partida, um programa, um objectivo, uma ideia que é preciso desenvolver. A principal consequência é que este espectáculo parece muito mais livre, muito mais espontâneo do que os anteriores. Há princípios, diríamos quase que valores, que se vão desenvolvendo ao longo de espectáculo (as repetições, uma certa ideia de representação ou mesmo de caricatura, a exploração do burlesco), mas cada quadro é sempre uma experiência, é sempre uma proposta com o seu quê de aventureiro, é, sobretudo, sempre um risco. É essa a segunda grande diferença deste espectáculo para os dois anteriores de Roriz, uma dose de risco muito grande, um desafio que se renova a cada quadro, e que se coloca à encenadora, mas também ao público. A terceira grande diferença é que, pela primeira vez, Roriz não cede a uma certa ideia, mais ou menos institucional, de gosto, ou de bom gosto, e vai por aí à procura do seu gosto individual, à procura de uma ideia de estética que recusa o padrão para se firmar nas mais radicais escolhas individuais e subjectivas. O que, por seu lado, é um factor de risco acrescido.
Só estes três factores distintivos bastariam para particularizar esta criação de Olga Roriz, mas a eles acrescentam-se três outros que são valores seguros na encenadora. Desde logo, a omnipresença da temática amorosa, do amor espiritual e do amor carnal, o amor como o lugar do desejo, da atracção como da obsessão. Todos estes quadros são, ou podem ser, variações de uma certa ideia de encontro amoroso, um pouco à maneira de jump-up-and-kiss-me.
Outra das características seguras em Roriz, e que neste espectáculo, mais uma vez, ganha um fulgor maior, é a escolha dos trechos musicais que ajudam a contar a história, mais do que a ilustram ou servem apenas de fundo musical à dança. O ponto de partida da dança é sempre, como eu li já não sei onde, o amor pela música, a vontade de ser música. E isso é tão evidente no trabalho de Olga Roriz, e no caso de ‘Confidencial’ em que o repertório musical é também um percurso de pesquisa e descoberta.
Finalmente, outra das marcas mais seguras da dança de Roriz: uma forte ideia de coreografia, de ocupação do espaço cénico, sendo a própria disposição dos corpos no espaço denso do palco já um factor de intensidade, uma linguagem primordial à própria ideia de espectáculo. Neste caso, ainda mais, porque não há um dispositivo cénico pré-definido, não há aquilo a que chamamos um cenário, e o espaço vai-se ocupando e construindo e despojando e esvaziando à medida dos quadros e da sua sucessão. Sempre com uma noção de cena que é, para não exagerar, genial. Desde o quadro inicial, em que os bailarinos aparecem pendurados do tecto em panos negros que lhes envolvem os tornozelos enquanto lêem livros que seguram à medida que rodam lentamente, até ao deslumbrante quadro final, que deve ser das coisas mais fortes e incrivelmente belas que eu já vi num palco: de um monte de malas de viagem dispostas à boca de cena (na verdade, 40 malas; 40 é o número de que se faz este espectáculo: 40 bancos, 40 baldes, 40 ramos de flores, 40 malas) que os bailarinos vão abrindo, enche-se o palco de penas brancas, que flutuam pelo ar e vão formando um tapete espesso e esvoaçante, num efeito estético de cortar a respiração, quase uma visão do que deve ser o próprio céu, lá por cima das nuvens.
Pelo risco, pelo tom humorado (vi todo o espectáculo, e são mais de duas horas e meia, sempre muito divertido, sempre com um sorriso de felicidade), pelo prazer intenso, pelo erotismo que em Roriz é sempre uma pulsão muito forte mais do uma representação, pela beleza indescritível e profunda, este foi o meu espectáculo preferido de Olga Roriz e um dos melhores espectáculos de dança que eu já vi. Que eu já vivi, ia-me a fugir o teclado.
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de-lovely
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innersmile
Lá fui ao fim da tarde num saltinho a Aveiro, ver o De-Lovely. Não conseguia aguentar por mais tempo a ansiedade de saber que andava por aí um filme sobre a vida de Cole Porter, e com as canções sublimes do compositor, e eu sem ver. Cole Porter é uma das minhas ‘coisas’. Não é bem uma obsessão, nem uma mera colecção, não é daquelas coisas a que escolhemos dedicar a nossa vida, ou tão somente os nossos tempos livres. Não, não é bem isso. Na origem do meu ‘porterianismo’ está apenas gostar muito das suas canções, e à medida que fui conhecendo mais e melhor as canções, foi crescendo o meu gosto e a vontade de as conhecer ainda melhor. O meu grande desgosto de não saber tocar nenhum instrumento musical (nem sequer a voz) radica sobretudo no enorme desejo de poder tocar as canções de Porter, de as sentir por dentro, de as sentir com o corpo todo, e não apenas com os ouvidos. Tenho aí uma base de dados com canções do Porter que tenho cá em casa que, apesar de não ser actualizada há 7 ou 8 anos, tem mais de 250 entradas, ou seja, mais de 250 gravações de canções de Porter cá em casa. Um destes dias vou tentar actualizá-la, dá sempre jeito para tentar localizar alguma gravação, e sobretudo dá gozo saber quantas versões tenho de determinada canção.

Bom, quanto ao filme de Irwin Winkler. Começar por reconhecer que não é um grande filme, ou seja, não acrescenta prazer cinéfilo ao enorme prazer que são as canções de Porter. Não é que seja propriamente mau, mas pronto, não é um grande filme, à medida do talento das canções de Porter. E o ponto de partida desta biopic musical até nem era mau pensado: contado como uma sucessão de flashbacks, em que Porter, acompanhado por uma personificação um pouco dispensável da morte (um pouco como em All That Jazz, mas sem a acutilância amarga deste), vai revisitando através das suas canções o que foi a sua relação com a mulher Linda, e a maneira como essa relação marcou e foi marcada pela carreira de Porter enquanto criador de musicais mais do que propriamente enquanto escritor de canções. Aliás, aí reside, para mim, um dos pontos fracos do filme, a actividade de compositor de Porter é sempre representada no filme como mais um dos seus gestos elegantes e cheios de ‘debonnaire’, sem nunca se tentar ao menos esboçar o que possa ter sido a relação de Porter com a música, como é que ele funcionava como compositor, quais as suas pulsões e a forma como elas se manifestavam. Verdadeiramente nunca se vê Porter a compôr, mesmo quando a ideia seria essa, mas sempre Porter exibindo a sua elegância e a elegância das suas canções ao piano.
O casamento de Cole e Linda foi marcado por três factos: o estilo high society, bom vivant, dos primeiros anos, que marcaram a ascensão de Porter enquanto escritor de musicais; as crises motivadas pelas constantes escapadas homossexuais de Porter; e os dramas da doença de Porter na sequência de um acidente de equitação e o da doença de Linda. O problema é que o filme não é capaz de dar intensidade a estes acontecimentos, não os ‘sentimos’ verdadeiramente, como determinantes na vida daquelas personagens. Apesar de algum realismo nas caracterizações das personagens, nomeadamente na recusa do filme de resumir a vida de Porter, e do casal Porter, a uma sucessão de taças de champagne, focando os aspectos mais trágicos e infelizes.
Mas o que salva mesmo o filme, é claro, são as canções maravilhosas de Cole Porter, e não obstante estarem ausentes algumas das minhas preferidas. Mas a verdade é que o sonkbook de Porter é tão extenso que seria impossível dar lugar a todas as canções. Além disso, e pela própria estrutura do filme, compreende-se que tenham sido escolhidas aquelas canções a que poderia ser dado maior relevo narrativo, ou seja, aquelas que melhor serviam a estrutura narrativa do filme, ajudando a contar a história.
Destaque ainda para os actores: a composição de Kevin Kline é brilhante, e Ashley Judd cumpre o seu papel de musa inspiradora de Porter.
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