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iluminando vidas + paula rego
rosas
innersmile
Ontem fui ao Porto ver duas exposições.
A primeira, na Culturgest, de fotografia: Iluminando Vidas, uma colectiva de fotógrafos moçambicanos, sob a égide do decano da fotografia de Moçambique, Ricardo Rangel. Estamos claramente no território da foto-reportagem, ou não fosse Rangel um dos mestres deste género fotográfico (ele próprio reconhece a sua inspiração no trabalho da agência Magnum) e o ‘professor’ de toda uma geração de fotógrafos de Moçambique, nomeadamente os representados nesta mostra. Estamos ainda no domínio de uma fotografia de acentuada consciência social, quando não mesmo política. Como não podia deixar de ser, a experiência da guerra, sobretudo da ‘segunda’, a guerra civil, que durante perto de vinte anos devastou a massacrada população moçambicana, e destruiu a frágil economia do país. Destaque, por exemplo, para as fotografias expostas de Kok Nam, todas elas tendo por tema os soldados. Mas todas as outras feridas que dilaceram ou a sociedade de Moçambique estão presentes, como o flagelo da Sida.
Não consigo, como é óbvio, olhar esta exposição com um olhar despojado. Claro que não. Os meus olhos estão carregados de amor e admiração pela terra e pelo povo que me viu nascer, e esse amor contamina a forma como eu vejo aquelas fotografias. De qualquer forma, parece-me que a pouca objectividade ainda me permite ver nalgumas das fotografias mostradas trabalhos de elevado valor artístico. As de Ricardo Rangel são todas elas ‘outstanding’, um trabalho carregado de sentido e profundidade, e de um rigor formal muito nítido e recortado. Há uma fotografia, de Ferhat Vali Momade, que não encontrei na net, mas que tenho aqui no óptimo catálogo da exposição, que, se algum dia conseguir publicar o meu projecto de livro sobre a minha experiência moçambicana, gostaria de ver na capa.
Convém ainda salientar que Iluminando Vidas é uma exposição itinerante, e que já teve duas internacionalizações: esta no Porto e uma anterior na Suiça, para além de duas exibições em Moçambique: em Maputo e em Nampula. Há um site dedicado ao projecto (Iluminando Vidas) e um catálogo muito bom que está à venda no local da exposição.

edit: através deste link, é possível ver as biografias dos fotógrafos, os seus auto-retratos, e uma selecção de 25 fotografias que integram o projecto.

A outra exposição foi a dedicada a Paula Rego, em Serralves. Tenho de começar por dizer que a pintura de PR não me arrebata, naquele sentido em que digo que a pintura de Bacon me arrebata, ou seja, no de que quando me ponho em frente a um quadro de Bacon, ele imediatamente começa a dialogar comigo, a provocar-me, a interpelar-me, a estimular-me. Como digo, isso não me acontece com a pintura de PR, por isso a minha apreciação é desfalcada, falta-lhe alguma coisa, é sempre marcada por essa minha incapacidade. E no entanto, sou capaz de reconhecer nos quadros de PR uma imensa capacidade enfabulatória, uma pintura toda marcada pela narrativa, pela necessidade de contar histórias. Como diz o meu amigo Pedro, os quadros da PR parecem aqueles sonhos que temos sempre muito recheados de peripécias e personagens, que estão a um passo da realidade, da nossa realidade, mas que são já de um outro domínio, de uma outra dimensão. E é isso que mais me agrada na pintura de PR, o potencial de histórias que podemos construir a partir da experiência de olhar um quadro seu.


Encontrei, na exposição Ilumando Vidas, este poema do Rui Knopfli, intitulado EPIGRAMA:

Os teus lábios, digo-te, não são doces
como mel.

(O mel
acaba por enjoar.)

Mas são doces, os teus lábios, digo-te.
Mas doces como quê?
Ora, doces como eles são.

Doces?

Sim, olha, doces como o pão
que todos os dias comemos
sem fartar.