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hei, jovem padawan
rosas
innersmile
Escondo-me num recorte da costa num ponto da ilha a que chamam “passagem das águias”, o ponto mais a sul, tempestades e aves marinhas e ondas e vento de nos roer as orelhas.
Pesco, bebo água da chuva, roubo ovos aos ninhos, faço fogueiras de turfa à noite e sinto a armadilha morder por toda a parte e resisto, apenas para viver. E descubro uma carcaça de veleiro, recupero madeira para a gruta de abrigo.
Passo o dia abrigado a olhar o mar.
Sinto a minha vida endurecer-se para absorver o golpe e o aceitar.
Não há caminho de fuga, a terra acabou, não há outro sul para onde descer, não há porão de navio para um sono balançado de salvação.
Vejo mar que raspa os rochedos e o branco de unha das ondas é a linha que o separa da terra.
Vejo a linha vermelha do pôr do sol que separa o dia da noite, penso que o mundo é obra do rei do verbo dividir e espero a linha que virá separar-me dos dias.
E a vida é um longo traço contínuo e morrer é recomeçar essa linha sem o corpo. E vejo o voo picado de asas dentro do vão das ondas e nem o peixe que tem o mar todo para se esconder se salva.
E as aves que voam por cima: cada uma está só e sem aliança com as outras. A família delas é o ar, não as asas das outras e cada ovo posto é solidão. E eu no escuro das brasas faço uma omelete de solidão e mato a fome.
E quando calha sentir que o meu tempo é coisa pouca, penso no que está a suceder entretanto em tantos sítios do mundo e passa perto do meu: árvores que largam o pólen, mulheres que esperam que as águas se rompam, um rapaz que estuda um verso de Dante, mil campainhas de recreio que estão a tocar em todas as escolas do mundo, um vinho que fervilha ao ser trasfegado e tudo acontece no mesmo momento e desse modo o meu tempo alia-se a todos esses momentos para se tornar maior.


Erri De Luca, Três Cavalos (excerto)


Que o tempo seja sempre maior para ti, meu caro naovouporai. Grande abraço.