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innersmile
CONTO COM GATO

O conto começa no momento em que a personagem conclui, ao ver os médicos abandonar a sala de emergência, ficando apenas uma enfermeira a desligar as máquinas, que morreu.
Conclui, além disso, que afinal sempre há vida depois da morte. Ela própria está ali, fora do seu corpo morto. Nem se atreve a olhá-lo, com receio do desgosto. Desgosto por o ver maltratado, descomposto pelo desnorte do enfarte, espetado por agulhas, rasgado por sondas e seringas, a pele, a sua pele, maculada pelo violento esforço dos médicos. Mas desgosto também por vê-lo, ao seu corpo, já fora de si, uma pedra dormindo, aquele corpo que, até há brevíssimos momentos, julgava ser tudo o que tinha, tudo o que poderia verdadeiramente chamar de seu.
Afinal, sempre há vida depois da morte. Resolvido o mistério. Finalmente. É para isto que vivemos uma vida inteira, para descobrir o que acontece nesse preciso instante em que os médicos desistem do milagre da ressuscitação. Vida espiritual, passe o lugar-comum. A personagem tenta sentir-se, mas a única coisa que consegue sentir, é que existe, é que ainda perdura, ainda sente, apesar de não sentir mais nada, desprovidos os sentidos da sua elementar tarefa de nos relacionar com o mundo dos outros.
Como é estar morto?, pergunta-se. Procura em seu redor um cliché: um longo corredor obscurecido, uma luz branca ao fundo, a sua vida contada em imagens rápidas a passar vertiginosamente pelos lados dos seus olhos. Mas nada. Tudo ao seu redor é apenas um incomensurável vazio, uma noite sem estrelas e sem lua, um breu absoluto e aborrecido, um silêncio sem cor. Um oceano de ausências, por onde a personagem sente que vai deslizando como a brisa leve que faz agitar a imperceptível cortina.
E de súbito surge-lhe à frente uma outra alma, materializando-se instantaneamente, como se, por absurdo, uma entidade espiritual se pudesse materializar. Mas seja como for, a personagem, que até há um momento se sentia sozinha num vácuo baço e leitoso, agora sente que está acompanhada, que já não é mais uma alma sozinha. À sua frente, ou atrás de si, ou ao seu redor, que a noção de espaço e lugar é demasiado incerta (tal como a noção de tempo é fluída e esgarçada: ainda agora estava só, e agora já não está), há um outro espírito, vivo como o dela, igual ao seu, ou seja, feito da mesma imaterial substância, mas que a personagem tem a certeza que é um outro espírito, um espírito outro, o espírito de um outro. E, ademais, a personagem reconhece esse outro espírito, identifica-o, é-lhe familiar.
Outro mistério resolvido, e este tão perplexo como o anterior, ainda que se pudesse dizer, mas não se deve, não tão primordial: os animais também têm alma, e a alma dos animais é tão imortal como a das pessoas. A personagem reconhece de imediato nessa outra alma que agora a acompanha, a alma de um gato negro que lhe tinha sido oferecido por ocasião do seu décimo aniversário e que tinha vivido durante os dezassete anos seguintes na sua diária companhia e dependência. Dependência mútua, naturalmente. Um gato de eloquentes silêncios e amanheceres estridentes e mimados, grande e gordo como o afecto que a personagem sempre lhe dedicou, em troca de uma paixão sobrevivencial que o bicho tentava, por razões de dignidade, esconder sob uma aparente e afectada indiferença
Terá passado pelo espírito da personagem, pelo espírito do seu espírito, digamos, que havia na situação alguma estranheza. Afinal, não se cruzara com nenhum dos espíritos de todos aqueles a quem amou e que a antecederam na morte: parentes, amantes, amigos predilectos. Toda essa constelação de afectos que formam um rosário de vida, um rosário peculiar, que vai crescendo à medida que se vai desfiando. Mas se lhe passou pelo espírito essa estranheza, foi passagem rápida e fugaz, porque, sendo na morte, e como já se viu, o tempo tão fluído, no momento imediato já a personagem se compraz na companhia feliz da alma do gato. Na verdade, o primeiro ser a quem verdadeiramente amou. Ou o único que amou ainda antes de saber que havia um conceito definidor do sentimento amor, e, é claro, muito antes de perceber o significado e o alcance desse conceito.
Nesta altura do conto impõe-se uma reviravolta estilística, trocando a narrativa por um diálogo vivo e comovente entre duas almas que há muito não se trocavam. Na verdade, é até a primeira vez que estas duas almas dialogam de forma tão directa. Nunca, em vida de ambas, à personagem passou pelo espírito conversar verdadeiramente com o animal, nesse sentido de reciprocidade que o diálogo sempre contém, apesar de constantemente falar, não com ele, mas para ele. Ao gato, se lhe passou alguma vez pelo espírito conversar com a personagem sua dona, em algo mais que aflitivos miados e ronronares dolentes, não se sabe. Por isso, a morte, pensa a personagem, lhe traz outra novidade, esta de poder conversar com os bichos, ou, em todo o caso, com a alma do seu adorado e saudoso gato.
Uma conversa um pouco bizarra, no entanto, já que um fala sem realmente falar, e o outro ouve sem chegar a ouvir, como se o simples facto de estarem assim juntas, pairando uma na periferia da outra, permitisse que os pensamentos fluíssem sem a intermediação das palavras, ou, com rigor, das palavras ditas, faladas, já que, até prova em contrário, sempre o pensamento se há-de socorrer das palavras, mais não seja para chegar ao conto. Mas o diálogo corre, e corre bem: saudações, protestos de saudades, desfiar de recordações, a família, a casa, as brincadeiras, como foi a vida depois da separação, e o que ela custou, a ambos sabe-se agora, o que ficou por fazer, enfim, todos esses inventários inevitáveis entre duas almas amigas e por tanto tempo apartadas.
Se na eternidade houver tarde, já esta está descaindo para o seu termo quando o espírito do gato compõe uma expressão mais séria e comunica à personagem que, na realidade, na realidade da morte como é óbvio, tem estado à sua espera. Sabias que eu vinha, então?, pergunta um pouco perplexa a personagem. Não só sabia que vinhas como te aguardo ansiosamente. E começa o gato de explicar, não sem algum embaraço e hesitação, que na verdade os dois espíritos são apenas um, unificados pelo laço forte do amor que os uniu em vida. Mas é complicado, sustém o gato, porque sendo um espírito na morte, prosseguiremos sendo dois em vida. Em vida, espanta-se a personagem, pressentindo um sobressalto que há-de vir, e sendo o tempo fluído como já se viu, transtorna-se o momento de um momento para o outro.
Não te percebo, diz, sem todavia falar, a alma da personagem. Somos um espírito na morte e dois na vida. O que significa? Que tu me amaste tanto, e que eu me deixei amar tanto por ti, amarrou-se de tal forma a minha dolência à tua dedicação, e a tua quietude à minha argúcia, que, como disse, somos um. Tenho estado à tua espera porque é esse o meu destino, aguardar que a tua alma se cole e funda na minha. E então, retorque a personagem, faremos companhia um ao outro para sempre, parece-me bem. Mas há um problema, enruga-se o espírito do gato com ar grave. Tu és uma alma humana, cumpriste o teu destino, viveste, foste feliz e fizeste a felicidade de outros. Cumpriste-te. Aqui, o espírito da personagem não evitou o esboço de um sorriso orgulhoso. Sim, tens razão para essa pequena vaidade. Mas cumprindo-te, cumpriste também a tua missão. Fechaste o ciclo da tua vida. Ora, eu sou a alma de um gato, e como sabes um gato tem sete vidas, das quais apenas cumpri quatro. Que dizes, era o sobressalto há pouco pressentido a surpreender a personagem. Isso em que pensas. Como somos apenas um espírito na morte, terás de ficar aqui à minha espera enquanto eu regresso para viver uma nova vida.

O conto estaria já terminado se não fosse abrir-se a porta de serviço e o ar gelado da noite sacudir o peso da tristeza que se abatia sobre a enfermeira. Terminado mais um turno, e enquanto atravessa o parque de estacionamento, o nebuloso alvor da madrugada retardando a manhã de Inverno, a enfermeira pensa em como os anos de profissão não atenuam a sensação de vazio de cada vez que alguém morre, subitamente, assim, na sala de emergência. Tão jovem, uma vida por cumprir, um destino riscado do mapa dos vivos, não é justo, pensa ela, sombria e cansada. Acciona o alarme da porta do automóvel, e prepara-se para entrar no carro quando ouve uns gemidos vindos do contentor de lixo próximo. Só me faltava mais esta, o que será. No cimo do monte de lixo, agita-se um saco plástico atado com um nó. Estão vivos, que crueldade. Abre o saco, desatando o nó e afastando as asas. Uma ninhada de gatinhos recém-nascidos, todos mortos à excepção de um, todo negro, que se debate aflito contra a asfixia do saco fechado e do peso morto dos irmãos. A enfermeira retira-o do monte ainda quente de pelo. Uma vida por uma vida, diz em voz alta, enquanto, enrolando o gatinho frágil na dobra do casaco, se dirige apressadamente para o automóvel.
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