October 3rd, 2004

rosas

the village

Na sexta-feira (sessão da meia-noite) fui ver The Village, de M. Night Shyamalan. A primeira nota é para a solidez narrativa do filme, que é impressionante. A história do filme é contada em imagens, em planos, em sequências, o que demonstra uma capacidade muito grande de dispor os elementos do filme, mas também uma visão muito cinematográfica. Apesar de haver factos, histórias, pormenores que nos são transmitidos pelas personagens, esses factos têm sobretudo a ver com as peripécias da própria história que o filme conta, e não com a própria economia do filme, com a forma como ele se estrutura e organiza, com o modo como ele cresce e se desenvolve. Esse, é todo ele dado através do trabalho da câmara, como é suposto ser, e como Shyamalan parece tão bem ter aprendido com os grandes mestres do cinema americano.
Outra nota é para o facto de Shyamalan se mostrar um pouco mais liberto de duas características que se vinham apresentando como marcas do seu cinema e que, na minha opinião, o começavam a condicionar. A primeira é o sobrenatural, que pela primeira vez não existe fora da história, mas exclusivamente dentro dela, como nos contos de fadas. Desta vez, não há ‘dead people’ que ensombre a capacidade de o filme encantar, uma vez que tudo o que existe em volta da história (metaforicamente, tudo o que existe na floresta que envolve a aldeia) é o medo que vive dentro dos personagens. A outra marca é o dos twists finais. Shyamalan caiu na armadilha que ele próprio tinha criado, a de engendrar sempre reviravoltas surpreendentes. Ora o risco é que a partir de certa altura o espectador já não estava a ver o filme mas sim apenas e exclusivamente à procura dos ‘sinais’ que lhe permitissem adivinhar a surpresa. Aparentemente, Shyamalan apercebeu-se disso, e de como isso era tão limitativo do seu cinema, e em The Village, apesar de haver surpresas, elas são enunciadas, deixam-se adivinhar, de forma que desde muito cedo resolvemos essa ansiedade e podemos dedicarmo-nos de corpo inteiro a desfrutar a maravilha narrativa do filme.
A terceira nota, é para a beleza imanente do filme, para a perfeição, ao mesmo tempo densa e leve, de cada plano do filme, não tanto naquele sentido que por vezes se utiliza de que ‘cada plano dava uma pintura’, mas para a própria beleza do filme em si, da história que conta. Para mostrar melhor o que quero dizer, aquele que é a minha sequência preferida do filme, aquela em que Lucius se declara a Ivy na varanda da casa, numa noite assombrada, mas ao mesmo tempo iluminada, pelos espectros que assustam a aldeia. É de uma intensidade tão grande, de uma beleza tão profunda, que dá vontade de chorar, e dá vontade de chorar não pelo destino das personagens, não pelo seu futuro ou pelo seu passado, não por causa do melodrama das suas vidas, mas apenas e somente porque está tão bem feito, porque é tão bonito, tão bonito e inconsequente, digamos, como uma tocha a arder na noite escura.
Finalmente, uma nota para os actores. William Hurt e Sigourney Weaver, tal como, de forma geral, o cast que constitui o conselho dos veteranos da aldeia, têm interpretações magníficas, que dão o tom a todo o filme, um tom de trágica serenidade, de magoada crença nas pessoas, de quem sabe que aquilo que tem nas mãos é muito bonito, mas é frágil como aquelas flores que abrem à meia-noite e morrem à primeira luz da madrugada. Joaquin Phoenix só não é surpreendente, porque já todos nos habituámos àquela espécie de incontida contenção, como se o corpo do actor fosse o monólito do filme 2001, uma superfície plana, e mesmo baça, mas que contém toda a energia do mundo. De Phoenix é, como já disse, a minha cena preferida do filme, em que muito da sua capacidade transfiguradora resulta da intensidade da representação, da força transtornada e transformadora que Phoenix dá às palavras com que declara o seu amor a Ivy. Mas é esta, a actriz Bryce Dallas Howard, que marca definitivamente este filme. É ela que, para usar uma imagem do próprio filme, lidera tão completamente o destino daquela história, é ela que marca o filme como parece marcar, de forma subtil mas inexorável, a vida na aldeia. Talvez porque apenas quando são os cegos a liderar os cegos, a capacidade de ver o que é essencial se torna mais determinante: que apenas o amor é capaz de vencer o medo.