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aditi mangaldas
rosas
innersmile
A primeira coisa a reparar é que se trata de um espectáculo da Aditi Mangaldas Dance Company,ou seja, não se trata de um grupo de danças tradicionais ou folclóricas, mas de uma companhia de dança, de uma companhia que tem uma ideia do que é a dança (a sua dança, naturalmente) e que desenvolve um vocabulário que sirva, que concretize essa ideia. O resultado, neste caso concreto, é que Aditi acrescenta a liberdade expressiva própria da coreografia ao rigor telúrico e ancestral da dança tradicional. Com efeito, o que Aditi faz é pegar na linguagem própria de uma das seis danças tradicionais da Índia, o Kathak, e a partir dela desenvolver uma peça de dança, uma ideia de coreografia, na qual o sopro expressivo da inspiração ultrapasse, suplante e sublime a técnica da linguagem.
Além disso, enquanto executante, Aditi Mangaldas é entusiasmante, transformando o corpo em imanência de energia, e não apenas em mero repositório, ainda que virtuoso, de uma engenharia de dança. Mesmo quando, como na primeira peça apresentada, a ideia é apetrechar o espectador dos conhecimentos mínimos da linguagem que vai ser utilizada. Mesmo aí, e por virtude de uma energia e de uma graça muito expressivas, é sempre o lugar do dançarino, do seu corpo, mais importante do que a mecânica dos passos.
Não se pode deixar de incluir o desempenho musical ao vivo, com voz, tablas, pakhwaj (suponho que seja este o nome do instrumento de cordas) e outras percussões (para além das criadas pela própria dança, pelos dançarinos com as batidas dos pés e a utilização de instrumentos de percussão nos tornozelos) como parte integrante da magia inspirada e encantatória da dança que varreu, como o vento ou como o fogo, o palco do Gil Vicente.

«I have a wanderlust. Just like people who roam the whole world, explore its remotest corners and try to fathom what lies beyond the earth, the solar system, the universe. I like to travel through my body and my mind. To explore new places, new routes, diverse avenues. To travel through various parts of my body and to let these parts travel through different parts of space. Would it be possible to watch the space within you, like you watch the space outside of you? As you see a dancer move through space, could you see the space move through you?»
- Aditis Mangaldas

Ainda uma nota positiva para público. E verdade que há uma emoção especial quando um artista se apresenta perante um público de fieis admiradores, porque há desde o início um calor, uma energia, entre palco e plateia, que incendeia o espectáculo. Alguns dos melhores espectáculos que eu vi, foram-no tanto por mercê do público como do artista que se apresenta. Mas é sempre comovente quando acontece o que aconteceu ontem, que é um público completamente desconhecedor do que vai acontecer, que a princípio não sabe como reagir (não saber o momento certo de aplaudir é uma delícia, torna tudo tão espontâneo), que está expectante e de espírito aberto, e aos poucos vai aderindo, vai se envolvendo, vai-se deixando aprisionar pelo sortilégio do espectáculo.
A nota negativa vai para o atraso inexplicado (porque ninguém deu uma explicação para o efeito) com que o espectáculo começou. Já não basta por sistema o TAGV anunciar o início da função para as 21,30 e invariavelmente ela começar às 21,45, a verdade é que muitas vezes o início só acontece às 22,00 ou até depois, como ontem. Agrava quando as portas do auditório permanecem cerradas e os espectadores ficam confinados ao foyer que, quando a sala enche, é pequeno e desconfortável para tanta gente. Não há pachorra, e é sinal de falta de civilização e de cultura. Os atrasos admissíveis são sempre extraordinários e por isso mesmo têm sempre de ser justificados e apresentadas as devidas desculpas.
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