September 21st, 2004

rosas

tropas e bandeiras

Li, um pouco na diagonal, que um tipo foi condenado a dez meses de trabalho comunitário por ter chegado fogo a uma bandeira nacional. Parece-me bem. Para além de ser um símbolo institucional, um símbolo da soberania nacional, da pátria, enfim, a bandeira é, entre outros, um símbolo da nossa existência colectiva, da nossa existência enquanto colectivo. Um tipo que está a destruir uma bandeira, está a destruir alguma coisa que é de nós todos. E a verdade é que nós devíamos ser tão zelosos a defender aquilo que é de todos nós como somos a defender o que é de cada um de nós. Quando um tipo está a queimar uma bandeira, está a demonstrar falta de respeito, não tanto pelo governo ou pelo presidente da república, mas falta de respeito por todos nós, pelos seus concidadãos. Enfim, falta de respeito pelos outros, que é um dos nossos piores defeitos enquanto sociedade.
Agora há uma coisa que é importante salientar. É que chegar fogo à bandeira é só o lado mais desagradável (eu queria dizer “nasty”) de uma certa trivialização do uso da bandeira. Ou seja não é muito diferente, enquanto falta de respeito, do que ter a bandeira à janela, toda descorada, rasgada nas pontas, à chuva e ao sol. Em ambos os casos, não é apenas tratá-la como um trapo que está em causa. É demonstrar que não se respeita o valor simbólico que aquele trapo tem para os outros.

Por estes dias, termina o famigerado Serviço Militar Obrigatório. Morre de morte lenta e natural, sem honra nem glória. Desagrada-me que a este momento fique ligado o nome do actual ministro da defesa, e por causa disso confesso que nem fico muito contente. Também o facto de o SMO ter vindo a morrer aos poucos ao longo dos últimos anos, retira impacto a este momento.
A verdade é que eu devia estar mais satisfeito. Entre as poucas causas a que aderi com alguma militância, uma delas foi, no princípio dos anos 80, a luta contra o SMO. Quer dizer, por militância entenda-se assinar abaixo-assinados e petições, ir a manifs e usar profusamente auto-colantes a dizer ‘serviço militar obrigatório? não obrigado’.
Depois, corrigi um pouco a mira. Aliás, lembro-me de na altura ter um debate (debatia-se muito, na altura) com um colega meu que era da JS e que me tentava convencer do disparate e do perigo que era acabar com o SMO. A ironia é que eu fui com ele ver os editais, quando acabámos o curso, e eu passei à reserva e ele foi incorporado (e logo na força aérea, que na altura durava dois anos).
Isto para dizer que entre ter um SMO e umas forças armadas de voluntários, venha o diabo e escolha. Não gosto de um certo elitismo militarista, ou, na pior das hipóteses, mercenário, que pode ser um dos perigos deste tipo de forças armadas. Mas a verdade é que o SMO, tantos anos depois, ainda me contínua a fazer sentir uma certa náusea perante uma espécie de igualitarismo mancebo verde-oliva.